“Tinha fé e uma força inspiradora”, diz mãe de jovem que morreu de câncer
Segundo a mulher, os primeiros sintomas começaram a aparecer no final de 2024, com manchas roxas pelo corpo e dores de cabeça.
Seis dias depois de se despedir da única filha, Paula Cássia Bezerra Ferreira, de 41 anos, encontrou um propósito para enfrentar o luto: transformar a dor em alerta. Manoela Vilela Ferreira de Lima morreu aos 19 anos, sete meses após ser diagnosticada com um câncer raro na glândula adrenal – carcinoma de córtex adrenal.
Segundo Paula, os primeiros sintomas começaram a aparecer no final de 2024, com manchas roxas pelo corpo e dores de cabeça. No entanto, na época, a resposta que recebeu de médicos era que se tratava de “estresse”.
Somente um ano depois, o diagnóstico do câncer veio, mas de forma tardia. Hoje, a mãe de Manoela quer que a história da jovem ajude outras famílias a insistirem na investigação de sintomas persistentes e a buscarem uma segunda opinião quando respostas não convencem.
“Minha filha lutou bravamente. Ela tinha uma força inspiradora. Hoje também transformo a minha dor em luta para ajudar outras pessoas”.
Ao lado do namorado da filha, José Ubirajara, de 18 anos, do primo Fabrício Bezerra, de 27, e da amiga de Manoela, Letícia Duarte, de 19, ela conversou com a reportagem do jornal A Tribuna e da TV Tribuna/Band.
A Tribuna - O que te motivou a falar sobre a história da Manoela neste momento?
Paula Cássia Bezerra Ferreira - Tenho recebido muitas mensagens de conforto de pessoas que estão passando pela mesma coisa que eu. Então, eu vejo que minha filha deixou um legado, que é um alerta para que a gente não aceite o primeiro diagnóstico, que a gente precisa insistir quando acreditar que há algo que pode estar errado.
Quando apareceram os primeiros sinais em Manoela?
Em setembro de 2024, a Manu tinha muitos roxos pelo corpo e dores de cabeça, então procuramos um médico.
Na época, não pediram exames mais detalhados. O que o médico disse apenas é que estaria relacionado ao estresse, já que ela estava em uma época de preparação para vestibulares.
Agora, fica a pergunta: se o médico tivesse pedido uma tomografia lá atrás, será que o desfecho teria sido diferente?
Então, meu alerta é para que as pessoas peçam exames, busquem outras opiniões e não aceitem o pouco. A gente tem que ir até o fim. O pedido fica também aos médicos, que tenham um olhar mais atento a esses sintomas.
Esses roxos persistiram durante todo o tempo?
Eles iam e voltavam. Às vezes de forma mais intensa e às vezes não. Como era muito branquinha, inicialmente a gente achava que tinha batido em algum lugar.
Ela também sentia um desconforto nas costas, e a gente pensava que era do período menstrual. Ela fazia acompanhamento com ginecologista, entrou com anticoncepcional, mas já era o tumor apresentando os primeiros sintomas.
Quando o quadro se agravou?
Em novembro de 2025 ela sentiu uma dor muito forte de madrugada. Ela até achou que estava infartando e foi direto para o hospital. A tomografia mostrou que ela tinha cerca de 400 ml de sangue na barriga.
Ela ficou internada por 10 dias e começou uma investigação. No primeiro momento, o tumor não apareceu, acreditamos que porque havia muito sangue na região. Ela fez uma outra tomografia em dezembro, e veio o diagnóstico.
Como foi esse momento de descoberta da doença?
Quem recebeu o diagnóstico foi a própria Manoela. Ela sempre foi muito madura. O laudo saiu no dia 25 de dezembro. Ela entrou no site para pegar e me mandou uma mensagem. Desde o início, ela soube de tudo.
Ela mesmo acessava os exames e até colocou o resultado no ChatGPT para tentar entender o que estava acontecendo.
Nós nunca escondemos nada dela e sempre respeitamos as decisões que ela tomou durante o tratamento.
Já sabiam a “extensão” do câncer?
Em dezembro, não. Foi solicitada uma ressonância para janeiro, mas conseguimos adiantar. O resultado saiu no início de janeiro, mostrando que o câncer já havia atingido a veia renal e a veia cava. A partir daí, começou toda a peregrinação para operar e fazer os tratamentos.
Ela chegou a fazer a cirurgia?
Depois da confirmação do diagnóstico, a cirurgia foi marcada para o fim de fevereiro. Antes disso, a Manu chegou a pedir ao médico um PET-Scan por causa das dores que sentia, mas ouviu que o exame não era necessário.
Quando a cirurgia foi realizada, os médicos encontraram linfonodos no fígado. O câncer já estava mais avançado.
Na minha visão, se esse exame tivesse sido feito antes, talvez o tratamento pudesse ter seguido outro caminho, com a quimioterapia para reduzir o tumor antes da operação. A cirurgia, aberta, foi muito sofrida.
Como a Manu enfrentou a doença?
A Manu era muito reservada. Poucas pessoas sabiam o que ela estava passando. Ela foi muito guerreira. Via os amigos vivendo a vida enquanto estava em tratamento, mas nunca deixou de acreditar que ia ficar bem e realizar os sonhos dela.
Nos últimos dias, já muito cansada, ela dizia: “Mãe, e os meus sonhos?”. Isso é muito difícil para mim. Mas ela nunca deixava transparecer a dor. Continuava sorrindo. Ela tinha uma força inspiradora.
O que mais marcou você durante esse período?
Ela tinha acabado de passar em Direito e estudaria com o namorado. Estagiou no Tribunal de Contas do Estado. Estava em sua melhor fase quando veio o diagnóstico. A gente acreditava até o fim que ela, mesmo com o tratamento, iria iniciar os estudos, teria uma vida normal e seguiria os sonhos dela.
Infelizmente, não foi a vontade de Deus. Eu digo que ela lutou e venceu. Não venceu da forma que nós queríamos, mas da forma que Deus quis.
Ela recebeu muito amor até o último instante. Morreu cercada por quem amava e deixou um legado muito importante.
Que mensagem você deixa para outros pais?
Busquem respostas até o fim. Não desistam. Se um médico disser que não há necessidade de um exame, procurem outra opinião. Não aceitem apenas um “não”. Façam o máximo possível, seja pelo plano, seja no particular. Quero ajudar, conscientizar e compartilhar o que vivi. Vou fazer isso pela minha filha.
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