Por que mudar de profissão ficou cada vez mais comum? Especialista explica
Especialistas dizem que transformações no mercado de trabalho e longevidade colaboram para as mudanças na carreira
Tecnologia, maior expectativa de vida, novas profissões, privatizações e até uma mudança na forma como o trabalho é encarado. Esses são alguns dos fatores apontados por especialistas para explicar por que mudar de profissão se tornou cada vez mais comum.
Tania Casado, psicóloga, doutora em Administração e diretora do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da Universidade de São Paulo (ECar-USP), explica que o aumento das transições profissionais é resultado de transformações que vêm ocorrendo há décadas no mercado de trabalho.
“A tendência é de constante mudança. A gente não volta mais”, afirma.
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Segundo ela, privatizações, terceirizações, crises econômicas, a globalização e, mais recentemente, a pandemia mudaram a forma como as pessoas enxergam o trabalho. A pandemia, acrescenta, acelerou esse processo.
“As pessoas começam a procurar o sentido da vida e isso tem a ver com o sucesso subjetivo.”
Para a pesquisadora, uma transição é bem-sucedida quando proporciona o chamado sucesso subjetivo, conceito ligado à integração entre vida pessoal, familiar e profissional.
Já a neurocientista e sócia-fundadora da Nemesis Neurociência Organizacional, Ana Carolina Souza, destaca a longevidade como um dos fatores que impulsionam esse movimento. Como as pessoas vivem e trabalham por mais tempo, é natural que tenham mais oportunidades de mudar de profissão ao longo da vida.
Outro aspecto, segundo ela, é a mudança na forma como a sociedade enxerga o sucesso profissional. Antigamente, explica, profissões como Medicina, Engenharia e Direito concentravam maior prestígio social.
“Qualquer coisa fora disso já era alvo de críticas. Hoje, você olha para a internet e vê influenciadores ganhando muito bem a vida.”
Ana também aponta o aumento do número de carreiras, o avanço da tecnologia, que facilita a adaptação a novas áreas, e uma valorização maior da saúde, do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e da liberdade de escolha.
“As pessoas sentem que podem fazer escolhas mais do que antigamente. A tecnologia permite se adaptar mais facilmente às transições. Não é mais algo malvisto quando a pessoa dá sentido a essa caminhada.”
Especialista em gente e gestão Edcley Gabriel aponta que esse movimento é impulsionado por três fatores: a escassez de mão de obra em alguns setores, oportunidades de remuneração que valorizam competências além do diploma e o interesse crescente das pessoas em buscar novas áreas de atuação.
Transição exige reflexão
A neurocientista Ana Carolina Souza alerta para a importância de não romantizar a transição de carreira. “Ainda é um lugar de privilégio, porque significa que, no mínimo, essa pessoa tem condições de pensar no futuro e fazer escolhas”.
Segundo ela, uma mudança de profissão exige planejamento. “Quem está no corre para pagar as contas e colocar comida em casa dificilmente consegue parar para refletir. Não é que isso não aconteça, mas essa pessoa terá que fazer um esforço maior para construir uma carreira alternativa.”
A psicóloga Tania Casado acrescenta que toda experiência profissional deixa marcas, mesmo quando a pessoa decide seguir outro caminho. Para ela, carreira é a sequência de experiências de trabalho acumuladas ao longo da vida. “O que somos é fruto de tudo o que vivemos no passado”, afirma.
Quando alguém muda de ocupação e deixa de atuar na área em que se formou, o conhecimento adquirido continua presente e pode ser aproveitado na nova trajetória.
Conhecimento
Quando tinha 16 anos, Marcilio Riegert surpreendeu a família ao escolher Filosofia no vestibular, enquanto eles esperavam um curso tradicional, como Direito. Apesar de ter atuado um pouco, seguiu carreira em outra área: tecnologia. O conhecimento adquirido na faculdade, porém, diz estar cada vez mais útil.
“Hoje, para trabalhar com a inteligência artificial, a filosofia é muito importante. Me vi revivendo aulas que tive em 1999 e 2000.”
Aos 44 anos, Marcílio é diretor de operações da GB Agritech e já passou por uma multinacional. A mudança de rumo aconteceu entre os 25 e 27 anos. Durante uma viagem à Alemanha, o executivo conheceu o ecossistema de startups e acreditou que aquele movimento chegaria ao Brasil. Criou uma aceleradora no Estado e uma carreira na área.
Escolha de nova área dá certo
Leticia Santoro, 29, encontrou na faculdade de Zootecnia vocação para o design. Seu objetivo era unir os dois, atuando com o agronegócio. Mas não encontrou espaço.
“Me formei em 2023. No ano seguinte, já era coordenadora em uma empresa de cosméticos. Eu queria ter independência, liberdade e poder viajar. O design me proporcionou isso.”
Já seu namorado, Reinaldo Assis, 30, se formou em Nutrição mas não encontrou vaga no mercado de trabalho.
Em quatro meses estudando programação, conseguiu emprego como desenvolvedor. “Não consigo ver outra área melhor”, diz.
Fica a dica
7 conselhos para quem pensa em mudar de carreira
1. Pergunte se o trabalho ainda faz sentido
Reflita se a profissão ainda traz realização, oportunidades de crescimento e permite que você enxergue valor no que faz.
2. Descubra o que realmente motiva você
Use ferramentas de autoconhecimento, como o exercício dos “cinco porquês” ou o conceito japonês de ikigai, para entender o que gosta de fazer, faz bem e pode gerar renda.
3. Planeje antes de mudar
Evite decisões impulsivas. Construa um plano, desenvolva as habilidades necessárias e faça a transição aos poucos, sempre que possível.
4. Experimente antes de abandonar a profissão
Teste o novo caminho em pequena escala. Dê aulas, cozinhe para amigos, crie um perfil nas redes ou aceite pequenos projetos para validar se aquela atividade realmente faz sentido.
5. Valorize sua trajetória
Nenhuma experiência é desperdiçada. Mesmo mudando de profissão, as habilidades desenvolvidas ao longo da carreira continuam sendo um diferencial.
6. Entenda que mudar faz parte da carreira
As trajetórias profissionais deixaram de ser lineares. Adaptar-se às mudanças do mercado e da própria vida é uma habilidade cada vez mais importante.
7. Não escolha a carreira pela vontade dos outros
Pressão da família, dos amigos ou expectativas externas podem levar a escolhas equivocadas. Reflita sobre o que realmente faz sentido para você.
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