Leia duas redações que tiraram nota 1.000 no Enem 2025
Dados do Inep mostram que o Espírito Santo não teve nota mil; distribuição abrange sete estados e queda é a menor desde 2014
A redação do Enem 2025 teve apenas 10 participantes com nota máxima (1.000 pontos), segundo dados divulgados pelo Inep. No Espírito Santo, nenhum aluno conseguiu obter a pontuação máxima, este ano. O tema da redação no ano passado foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.
Entre os 10 alunos que tiraram nota mil, há estudantes da Bahia (2), Rio Grande do Sul, Ceará (2), Rio de Janeiro (2), Pernambuco (2) e Alagoas.
No ano de 2024, apenas12 alunos tiraram nota mil. O número verificado na edição 2025 é o menor na série disponível desde 2014, quando 250 alunos conquistaram a pontuação máxima.
Leia as redações abaixo
Lucas Rodrigues, de Lauro de Freitas (BA)
O livro "A casa dos budas ditosos", escrito pelo baiano João Ubaldo Ribeiro, conta a história de CLB, uma idosa que, enfrentando estereótipos associados à velhice, mantém-se ativa e se recusa a encarar a senescência como fim. Para além da literatura, contudo, são outras as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira: cada vez mais há idosos doentes, invisibilizados e inativos. Nesse sentido, estabelece-se um cenário hostil, sustentado pelo Estado e pelas empresas, que prejudica a qualidade de vida e acelera a morte. À vista disso, tanto o descaso estatal quanto a má conduta do setor privado impulsionam esse problema.
Sob essa lógica, convém destacar a negligência do Estado como agravante dessa problemática. Isso ocorre, porque tal instituição não oferece políticas em quantidade e eficiência suficientes para os idosos, comprometendo a sua qualidade de vida. Acerca disso, Achille Mbembe, filósofo camaronês, afirma, a partir de seu conceito de "Necropolítica", que o Estado decide quem vive e quem é destinado a um projeto de morte. Nesse rumo, percebe-se que a ideia do filósofo é assertiva e aplicável ao contexto do envelhecimento na sociedade brasileira, uma vez que, devido à composição hegemônica do corpo político (deputados e senadores majoritariamente distantes dos 65 anos, isto é, alheios à realidade da velhice), são escassas as políticas públicas, como a garantia de equipes especializadas em geriatria nas UBS, destinados a esse público. Em efeito, sem, por exemplo, enfermeiros e médicos em quantidade e capacitação adequados nos sistemas públicos de saúde, os idosos, cada vez mais, sobrevivem sem condições dignas de vida. Dessa forma, fica claro que a parcialidade na distribuição de qualidade de vida, cometida pelo Estado e criticada por Mbembe, é nociva ao bom envelhecimento dos cidadãos do Brasil.
Outrossim, cabe analisar a má conduta das empresas como fortalecedora dessa questão. Afirma-se isso, pois grande parte do setor privado não se preocupa com a senescência dos funcionários, acelerando a sua morte. Sob tal contexto, Jim Collins, empresário norte-americano, afirma que a mentalidade empresarial é egoísta e gananciosa. Nesse viés, a afirmação de Collins é verdadeira, já que, pela motivação gananciosa de maximizar seus lucros, muitas empresas não garantem uma vida ativa aos seus colaboradores idosos, deixando, por exemplo, de investir em programas como o "Gympass" (um plano que dá acesso a diversas academias e atividades esportivas). Por conseguinte, esses cidadãos, muitos sobrecarregados com jornadas exaustivas de trabalho, acumulam comorbidades, a exemplo da obesidade ou doenças psíquicas, como a ansiedade, o que pode acelerar a sua morte. Dessa maneira, é evidente que a conduta egoísta das empresas, exposta por Collins, prejudica o envelhecimento dos brasileiros.
Portanto, devem ser resolvidas a negligência estatal e a má conduta do setor privado enquanto obstáculos para o envelhecimento de qualidade no Brasil. Com essa finalidade, é preciso que o Estado, principal idealizador e aplicador das políticas públicas do país, por meio de parceria com o setor privado, crie políticas públicas mais assertivas e direcionadas à terceira idade, com foco em saúde e atividade física, a fim de garantir um envelhecimento ativo e, consequentemente, mitigar esse problema. Assim, a perspectiva acerca da resistência na sociedade brasileira se aproximará da perspectiva de CLB.
Fonte: @ucaas.rodriguees_
Carlos Eduardo Gomes dos Santos, de Mombaça (CE)
O sociólogo e professor Boaventura de Sousa Santos afirma que a sociedade vive uma “sociologia das ausências”, uma vez que os saberes e o modo de vida de determinados grupos tendem a ser invisibilizados por não se encaixarem na lógica da racionalidade ocidental. Nesse sentido, ao analisar o hodierno contexto brasileiro, é perceptível que a população idosa é marcada pela sociologia defendida pelo professor, já que o envelhecimento desses indivíduos testemunha um descaso social de desassistência e preconceito, marcado por perspectivas que dificultam a qualidade de vida e a inclusão social. Por isso, urge uma discussão sobre essa problemática, a qual é sustentada não só pela negligência estatal, mas também pela omissão midiática.
Diante desse cenário, faz-se mister mencionar a ausência de políticas públicas de saúde para a população idosa como um dos fatores dessa estigmatização. Nessa ideia, verifica-se que esse panorama é facilmente encaixado no conceito de “necropolítica”, descrito pelo filósofo Achille Mbembe para explicar o poder do Estado de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Partindo dessa lógica, o “deixar morrer” é visível quando se observa a realidade de milhares de idosos na comunidade brasileira, haja vista que a omissão dos órgãos estatais afeta a qualidade de vida, evidenciada pelo não destino de verbas que garantam o desenvolvimento de atividades físicas e interativas nos Centros de Referência Especializado e de Assistência Social (CREAS), além da ausência de campanhas preventivas, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), para doenças que acometem essa idade, como diabetes e hipertensão. Consequentemente, perpetua-se uma sociedade que marginaliza o envelhecimento e que sofre com os impactos causados por essa desassistência: o aumento de doenças e, com isso, o aumento de gastos públicos. Logo, fica clara a necessidade de reformular essa postura do Estado urgentemente.
Outrossim, é válido destacar, também, que a inexistência de abordagens midiáticas sobre a importância do envelhecimento configura-se como uma das causas desse imbróglio. Segundo o filósofo estadunidense Noam Chomsky, em sua obra “A fabricação do consentimento”, afirma que a maneira mais inteligente de manter as pessoas passivas é limitar o seu espectro de opinião e criticidade. Nessa acepção, conclui-se que esse comportamento intencional legitimado pelo filósofo é visualizado na agenda dos aparelhos midiáticos que envolve o envelhecimento devido à mentalidade etarista que se expressa, principalmente, pela não abordagem da importância da inclusão profissional e da representatividade em espaços importantes — a exemplo de cargos políticos e vagas em universidades — desses indivíduos. Por conseguinte, cria-se uma malha social que distancia a população idosa do convívio social, relegando-os à solidão e à passividade social. Assim, enquanto persistir essa exclusão midiática, jamais será possível atenuar esse óbice.
Portanto, cabe ao Poder Executivo, por meio do Ministério da Saúde — órgão responsável pelas diretrizes nacionais do sistema de saúde — em parceria com os CREAS, desenvolver atividades físicas de grupo e movimentos interativos, como dança e pintura, que despertem a população idosa para o cuidado físico, bem como campanhas de prevenção nas UBS às doenças da terceira idade, com a finalidade de garantir uma qualidade de vida saudável. Além disso, os veículos midiáticos devem retratar a personalidade do envelhecimento em figuras e espaços de poder para combater o idadismo. A partir dessas execuções, as perspectivas do envelhecimento no Brasil serão outras, agora não mais a da “sociologia das ausências”.
Fonte: @cadu.gs07
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