No ES, mulheres ganham espaço no agronegócio e investem para crescer
Presença feminina no setor primário cresceu 9,64% desde 2022, puxada por apoio do microcrédito ao empreendedorismo
As mulheres estão conquistando cada vez mais espaço no agronegócio capixaba. De 2022 a 2025, o número de mulheres no campo cresceu 9,64% no Espírito Santo, enquanto a presença masculina recuou 1,97%, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego.
Por trás dos números estão histórias como a da produtora rural Neteires Pereira das Neves Moreira, de Vila Pavão, no Noroeste do Estado. Quando começou a produzir macarrão artesanal, dividia uma cozinha com outras três mulheres da comunidade.
Hoje, sonha em ver seus produtos nas prateleiras dos supermercados capixabas. Além da produção de massas, Neteires cultiva café, cria peixes e mantém uma mini-hidroponia na propriedade. A trajetória, porém, quase foi interrompida pela falta de água.
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Sem recursos para investir, ela recorreu ao primeiro microcrédito da vida. O financiamento, de cerca de R$ 6 mil, ajudou a resolver o problema de abastecimento de água na propriedade e permitiu ampliar a produção. Desde então, o crédito se tornou um aliado para novos investimentos.
“Quando passo um aperto ou preciso crescer mais, corro atrás de um novo financiamento. Quando consigo um recurso, procuro investir de verdade, comprando máquinas e aumentando a produção”, conta.
Para o especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, o avanço feminino no agro está ligado à busca por qualificação e ao protagonismo na administração das propriedades.
“Hoje, a mulher busca mais formação e ferramentas de gestão da produção, da agricultura e da pecuária. Ela conquistou maior protagonismo no campo e mais iniciativa na busca por qualificação técnica”, afirmou.
Segundo Lira, esse movimento também reflete uma gestão mais estratégica das propriedades rurais, especialmente das pequenas unidades familiares. "Observamos no Espírito Santo um protagonismo crescente da mulher no campo pela sensibilidade na gestão da pequena propriedade rural", destaca.
Cada vez mais presentes em diferentes cadeias produtivas, as mulheres ampliam sua participação no agro capixaba não apenas como força de trabalho, mas também à frente dos próprios negócios, combinando produção, gestão e empreendedorismo.
De pastagem degradada a referência tecnológica
O primeiro patrimônio que Fabiana Justino Silva, de 45 anos, construiu não foi uma lavoura, uma casa ou uma agroindústria. Foi o próprio chão. Depois de anos trabalhando como meeira ao lado do marido, ela conquistou a terra onde hoje produz café, cacau, pimenta e frutas em Água Doce do Norte.
A propriedade, que em 2013 era apenas uma área de pastagem e mata, tornou-se fonte de renda, conhecimento e oportunidades para toda a família. É que Fabiana liderou a criação da Associação Familiar dos Agricultores do Recanto Feliz.
Para quem havia passado a vida cultivando terras de terceiros, a escritura representa mais do que a posse da propriedade: significa a chance de finalmente decidir o próprio futuro.
Mas conquistar a terra foi apenas o primeiro passo. Para transformar o sítio em uma propriedade produtiva, a família precisou investir. Os primeiros cinco mil pés de café foram implantados com apoio do microcrédito rural do programa Agroamigo, do Banco do Nordeste.
Com o passar dos anos, novos financiamentos permitiram ampliar a lavoura, que hoje soma cerca de 14 mil plantas, além de viabilizar a instalação de energia solar e uma estufa utilizada na secagem das amêndoas de cacau.
“O crédito foi parceiro desde o começo. Os primeiros pés de café foram financiados e, a partir daí, fomos crescendo”, resume Fabiana.
O crescimento da propriedade acompanhou a ascensão de Fabiana como liderança feminina no campo. Além de administrar a produção ao lado do marido e dos filhos, ela se tornou referência para agricultores da região.
“Quando uma cresce, outras seguem”
A produtora Neteires Pereira superou um início modesto para profissionalizar sua agroindústria. Em entrevista, ela conta como sua busca pelo sucesso se tornou um incentivo para o desenvolvimento de toda a sua comunidade.
A Tribuna — Seu trabalho não se resume apenas à sua propriedade. Como você vê o impacto do seu sucesso na vida das outras produtoras da sua associação?
Neteires Pereira — É algo muito gratificante. Eu trabalho ao lado de quatro colegas e, ao verem os resultados que alcancei com a organização e o apoio do banco, elas se sentiram motivadas. Cada uma montou sua própria agroindústria, com documentação certinha, para participarmos juntas dos projetos. Quando uma cresce, as outras acompanham; a gente discute as ideias, busca ajuda no banco e avança em conjunto.
Esse efeito cascata de empreendedorismo fortalece a união de vocês?
Com certeza. A gente troca muita experiência. Desde que montamos a associação, há mais de oito anos, o objetivo sempre foi crescer. Quando surge uma oportunidade ou uma nova tecnologia, a gente avalia como grupo. O sucesso de uma acaba sendo um incentivo real para as outras também buscarem o crédito e profissionalizarem o próprio negócio.
Que mensagem você deixaria para outras mulheres que, assim como você, querem começar um negócio na agroindústria?
Comece. Eu comecei do zero, montando na cozinha da vizinha, e hoje tenho minha estrutura própria e o reconhecimento do banco. Com foco, acreditar no sonho de trabalhar em casa e estiver disposta a aprender e evoluir, o resultado vem. O segredo é não ter medo de crescer e saber que, juntas, a gente vai muito mais longe.
Quais são os seus maiores sonhos e planos futuros para a sua agroindústria?
Hoje, sinto que já percorri um caminho importante: busquei capacitação, fiz estágios e visitas técnicas em locais de referência para aprender os segredos da produção de macarrão.
Meus planos imediatos são claros: quero ampliar a estrutura da minha agroindústria. Meu maior sonho é ver a minha produção ganhar escala para que o meu macarrão chegue às prateleiras dos supermercados.
Dados
Aumento do trabalho formal
Elas comandam o agro capixaba
- Dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) mostram que, enquanto o número de vínculos formais masculinos recuou no setor, o feminino avançou significativamente entre 2022 e 2025 no Espírito Santo.
Números
- Crescimento da força feminina: +9,64% (de 5.635 em 2022 para 6.178 em 2025).
- Retração da força masculina: -1,97% (de 26.262 em 2022 para 25.745 em 2025).
Onde elas mais crescem
- Sementes e Mudas: O número de mulheres no setor mais que dobrou (de 103 para 204).
- Horticultura e Pecuária: Setores que concentram grande parte da mão de obra feminina, com aumento constante nos últimos três anos.
Maior ocupação
- A Produção de lavouras permanentes continua sendo a maior empregadora formal de mulheres no agro capixaba, com 2.461 vínculos ativos em 2025, seguida pela Pecuária, com 1.437.
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