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TRIBUNA LIVRE

Danilo e Freud na Copa

Lateral-direito e zagueiro conecta “papo cabeça” ao futebol e revela planos pós-carreira ligados à psicanálise e à saúde mental

José Antônio Martinuzzo | 29/06/2026, 20:30 h | Atualizado em 29/06/2026, 07:35
Tribuna Livre

Leitores do Jornal A Tribuna


          Imagem ilustrativa da imagem Danilo e Freud na Copa
José Antônio Martinuzzo. |  Foto: Divulgação

Para quem espera espetáculo com a bola nos pés, esta Copa já foi além. Com um “papo cabeça”, o lateral-direito e zagueiro Danilo fez um gol de placa no campo das ideias que põem em movimento o jogo da vida. Ao falar dos planos pós-futebol, uma das referências da Seleção revelou o projeto de se dedicar à psicanálise.

Numa sequência alentadora e inspiradora, deu um drible no foco do Mundial e falou do desamparo estrutural e suas implicações à condição humana, temática fundamental na arena psicanalítica e à existência contemporânea.

“É muito interessante que nós, seres humanos, mesmo muitas vezes com uma vida, digamos, completa, perfeita, sempre estamos buscando algo mais. A gente tem sempre um quê de insatisfação. Isso é explicado pela psicanálise”, pontua.

Danilo observa que isso se deve à “primeira ruptura emocional que a gente tem na vida, quando a gente percebe que não faz parte do corpo e da vida da nossa mãe, (que) a gente tem um corpo à parte, (que) a gente é um ser à parte”.

E continua: “Então, quando a gente tem essa ruptura emocional logo na primeira infância, isso causa uma cicatriz muito profunda no ser humano e que, depois, ela é explicada por essa sensação de sempre estar faltando algo na nossa vida”.

Para Freud, o humano “está menos acabado” do que os outros animais “quando é jogado no mundo. Por isso, a influência do mundo exterior é reforçada, criando-se a necessidade de ser amado, que nunca o abandonará”.

Nesse contexto, Lacan conceitua o “estádio do espelho”, por meio do qual o bebê começa a se enxergar como uma unidade corporal autônoma. Passamos a nos ver como alguém e não em alguém/ parte de alguém – nesse caso, a pessoa que exerce a função materna.

Como se percebe, da nossa constituição como sujeitos desejantes (porque “avulsos” e “faltantes”) ao mal-estar da angústia persistente (pela percepção aterradora do estado de desamparo), passando pela busca de redentores de nossa sensação de abandono no mundo hostil, o que Danilo falou diz muito de nossa psiquê, constituindo-se, também, quase que como uma agenda de enfrentamentos de adoecimentos mentais na atualidade.

Nesse sentido, não são poucos os males que nos rondam, como ansiedades, pânicos e depressões, além da subsunção a ilusionismos de felicidade perene e contínua, fundados basicamente em consumismos e adesões a discursos e personas salvíficos, sob a égide da perversão.

“Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos. Cada um tem de descobrir por si mesmo de que modo específico pode se salvar”, assevera Freud. Contardo Calligaris sublinha que não se deve buscar consertos neuróticos para o irremediável: “O essencial é indicar um real contraditório, que não tem conserto, para fazer com isso, com o inevitável, algo interessante”.

Parece que Danilo encontrou o seu “modo específico” de se “salvar”, na lógica de fazer do “inevitável” estado de desamparo “algo interessante” – uma vida desassombrada, algo inspirada. Como Freud disse, não há regra universal para a conquista de algum bem-estar sob o Sol, mas a bola está rolando em campo, disponível para o jogo de geral.

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