Quando o leitor ganha rosto
Visita de Haedel Mello Carneiro à redação reforça a força do vínculo entre quem escreve e quem lê
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Quem escreve para um jornal se acostuma a falar com pessoas que raramente encontra. Publicamos textos, compartilhamos reflexões, contamos histórias e seguimos para a próxima semana sem saber exatamente onde aquelas palavras chegaram.
Há alguns dias, porém, uma mensagem interrompeu essa lógica silenciosa.
Recebi o contato do filho de Haedel Mello Carneiro, procurador de Justiça aposentado do Espírito Santo, hoje com 96 anos. Na mensagem, ele contava que o pai acompanha minhas colunas há anos, guarda recortes das publicações e alimentava um desejo simples e especial: conhecer pessoalmente quem estava por trás daqueles textos.
Confesso que fiquei emocionada. Vivemos tempos em que quase tudo é imediato. Lê-se rápido, comenta-se rápido e logo surge algo novo para ocupar a atenção.
Por isso, saber que alguém preservou palavras publicadas ao longo dos anos me fez refletir sobre o verdadeiro alcance da comunicação.
Com a generosidade da equipe de A Tribuna, especialmente de Lenise Loureiro e Luciano Rangel, organizamos a visita. Haedel conheceu a redação, circulou pelos espaços do jornal, compartilhou histórias, memórias e observações construídas ao longo de uma vida marcada pela experiência e pela atenção ao mundo.
Mais do que receber um leitor, tivemos a oportunidade de ouvir alguém que também cultiva o gosto pelas palavras.
Entre as conversas, descobri que Haedel escreve. E escreve com a criatividade de quem continua exercitando a curiosidade, mesmo aos 96 anos. Foi então que ele me apresentou um texto que gostaria de compartilhar com vocês.
Acredito que esta seja uma das maiores belezas da comunicação: ela não acontece em uma única direção. Quem escreve também é transformado por quem lê.
Por isso, encerro esta coluna abrindo espaço para a voz de um leitor que, durante tantos anos, acolheu a minha.
CURIOSIDADE LITERÁRIA
Ler de cima para baixo e vice-versa.
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza de que nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
alimento um grande amor,
sinto cada vez mais que
já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais!
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