Como anabolizantes podem deixar o coração mais fraco
Apelo estético intensificado tem feito jovens colocarem a saúde em risco com uso desenfreado de anabolizantes
O apelo estético intensificado pelas redes sociais transformou a busca por saúde em uma vitrine obsessiva de corpos milimetricamente moldados e inatingíveis. Feeds repletos de imagens editadas e influenciadores que exibem rotinas de transformações físicas extremas criaram a chamada “ditadura dos músculos”, seduzindo cada vez mais jovens e adultos ao uso desenfreado dos anabolizantes.
Diante desse cenário alarmante, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia no Espírito Santo (SBEM-ES) lançou uma cartilha informativa sobre esteroides anabolizantes. O intuito é orientar médicos e a população geral sobre os riscos dessas substâncias.
Segundo a endocrinologista e presidente da SBEM-ES, Maria Amélia Julião, dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia revelam que 1 em cada 16 estudantes no Brasil (entre o Ensino Fundamental e Médio) já fez uso de esteroides anabolizantes sem qualquer indicação médica. “Na era do 'clique e receba', o jovem tem pressa para conseguir em três meses o que levaria três anos”, alerta.
Além do impacto social, a Dra. Maria Amélia chama a atenção para o risco cardiovascular. Como o coração é um músculo, ele também cresce com o uso dessas substâncias, tornando-se rígido e fibroso.
“Com menos espaço interno e sem flexibilidade, o coração perde a capacidade de relaxar e de bombear o sangue com eficiência, levando à insuficiência cardíaca”.
O uso desregula o colesterol e enrijece os vasos, disparando a pressão arterial e aumentando os riscos de infarto agudo do miocárdio e AVC.
A endocrinologista Flávia Tessarolo reforça que não há dose segura e que a falsa estética camufla um corpo doente. “Se avaliarmos aquela pessoa que usa um esteroide anabolizante, metabolicamente ela é igual a uma pessoa que está obesa e sedentária”.
Por fora há definição, mas por dentro há resistência à insulina e gordura visceral. “Estudos mostram que usuários têm ainda nove vezes mais risco de cometer um crime por conta da agressividade”.
O impacto psicossocial e sistêmico é endossado pela endocrinologista Queulla Garret. “Aumenta muito a irritabilidade e a agressividade. Grande parte dos casos de feminicídio provocados por homens foi feita por usuários de anabolizante”, adverte.
Fisicamente, os danos estendem-se por todo o organismo. “A testosterona é de metabolização hepática. Isso gera consequências graves, desde fibrose e cirrose até o hepatonoma, que é um câncer de fígado”, conclui Queulla, lembrando que o uso prolongado cessa a produção hormonal natural do corpo, culminando em atrofia testicular e infertilidade.
Mitos e Verdades
1 “Usar uma dose baixa de anabolizante é seguro”
Mito. Não existe dose segura fora das indicações médica. Mesmo quantidades consideradas “baixas” podem causar supressão hormonal, infertilidade, alterações no colesterol e aumento do risco cardiovascula.
2 “Mulher pode usar a para aumentar a libido”
Mito. A testosterona não deve ser utilizada de rotina em mulheres. A dosagem só é indicada quando há suspeita de excesso, e não de deficiência.
O uso sem indicação causa efeitos masculinizantes, como engrossamento da voz, aumento de pelos e infertilidade.
3 “Se for bioidêntico, é natural e não faz mal”
Mito. “Bioidêntico” significa apenas que a molécula é quimicamente igual à produzida pelo corpo, o que não garante segurança.
O risco depende da dose, via de administração e necessidade real; mesmo eles podem causar efeitos adversos graves sem acompanhamento médico.
4“Reposição hormonal e anabolizante são a mesma coisa”
Mito. A reposição hormonal é um tratamento médico para corrigir deficiências diagnosticadas.
Já o uso anabólico é feito sem necessidade clínica, com fins estéticos ou de performance, caracterizando uso indevido.
5 “Posso fazer reposição após um exame”
Mito. O diagnóstico de deficiência androgênica requer duas coletas matinais associadas a sintomas clínicos típicos.
Um exame isolado não é suficiente e pode levar a tratamentos desnecessários.
6 “Não há problema se houver acompanhamento”
Parcialmente verdadeiro / Mito. O acompanhamento médico é indispensável, mas não torna o uso do anabolizante em algo 100% seguro.
O uso fora das indicações reconhecidas pela medicina continua sendo arriscado e não é recomendado pela SBEM nem pelo CFM.
7 “Homens mais velhos precisam de reposição”
Mito. O declínio natural da testosterona com a idade nem sempre requer reposição.
Ela só é indicada quando há deficiência comprovada e sintomas consistentes. Sem indicação, o uso aumenta riscos de infarto, trombose e câncer de próstata.
8 “Ajuda a ganhar músculo e não engorda”
Mito. O ganho muscular pode vir acompanhado de retenção de líquidos, aumento da gordura visceral e alterações metabólicas.
Além disso, os resultados são temporários e, após a interrupção, pode ocorrer perda rápida da massa adquirida.
9 “Corpo se recupera sozinho se eu parar”
Mito. A interrupção abrupta pode causar síndrome de abstinência hormonal, depressão, queda de libido e infertilidade prolongada.
Em muitos casos, a produção natural de hormônios não retorna ao normal, exigindo tratamento especializado.
10 “Se fosse tão perigoso, não seria tão comum”
Mito. A popularidade de uma prática não a torna segura. Muitos usuários não relatam complicações por vergonha, mas estudos mostram aumento significativo de doenças hepáticas, cardiovasculares e psiquiátricas.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários