Quem não está sentado à mesa, está no cardápio
Dumping chinês pressiona o aço e expõe o risco de o Brasil abrir mão de produzir tecnologia
Evandro Milet
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A China produz 1 bilhão de toneladas por ano de aço, enquanto o Brasil produz 33 milhões. A China tem mais de 120 fábricas de automóveis em disputa predatória em um mercado que não comporta tanto. A saída é exportar, com fortes subsídios governamentais, e inundar o mercado internacional com preços fora da realidade — um dumping claro.
A planta da ArcelorMittal no Espírito Santo sempre foi considerada, internamente, a mais produtiva do grupo e, mesmo assim, sofre com o dumping chinês, adiando a decisão de implantar um laminador de tiras a frio, que daria um novo salto na oferta de insumos para a indústria automotiva e de linha branca.
Indústrias no Brasil que usam aço — por exemplo, autopeças — gostariam de poder usar o aço barato importado em seus produtos e aumentar sua competitividade. Os produtores de automóveis, por sua vez, prefeririam, por custo, importar as autopeças completas, certamente mais baratas do que as produzidas no Brasil. E, naturalmente, os consumidores prefeririam importar os automóveis, em vez de comprar das indústrias no país, considerando os altos impostos na importação.
Como resolver essa equação sem quebrar a indústria do país?
Recentemente, em artigo publicado no *Valor Econômico*, o economista Dani Rodrik anunciou sua mudança de ideia em relação ao tradicional papel da indústria para o crescimento econômico, enfatizando o desenvolvimento de capacidades produtivas em serviços que absorvem mão de obra e que, em sua maioria, não são transacionáveis — isto é, hambúrguer no lugar de aço. Países que não têm mão de obra qualificada e o nível de educação necessário deveriam seguir o caminho do aumento da produtividade por meio de serviços para atingir a melhoria de vida da população e deixar a indústria com quem dispõe das condições para isso, segundo seu novo pensamento.
É um pensamento suicida para o Brasil.
Até recentemente, as empresas de maior valor de mercado no mundo eram, principalmente, as de software, como Google, Microsoft, Amazon, Meta e Apple (essa com hardware também). Há pouco tempo, a Nvidia assumiu a dianteira, seguida da Apple, em um ranking em que, entre as dez primeiras, só a Aramco, de petróleo, aparece fora do setor de tecnologia. E aquelas que nasceram no software partem para desenvolver seus próprios chips, por estratégia de sobrevivência.
A revolução provocada no software pela IA explode na IA física, exigindo hardware e produtos físicos: data centers imensos, robôs mecânicos, fibras ópticas, satélites de comunicação e sensores de IoT. E uma coisa puxa a outra: data centers pedem muita energia, o que requer placas solares, torres eólicas, cabos de energia, equipamentos elétricos, terras raras, mineração… e aço.
É preciso colocar um ponto importante nessa discussão: existe uma diferença fundamental entre usar tecnologia e desenvolver tecnologia. Quem desenvolve pode comandar uma cadeia inteira, como faz a Embraer ao usar peças de outros países, mas mantendo o domínio do projeto, o que lhe permite lançar novos tipos de aeronaves. Quem só usa tecnologia fica vulnerável.
Nas relações internacionais conflituosas do momento, isso fica claro. O que se chamava antigamente de complexo industrial-militar agora se chama complexo industrial-militar-digital. Até nesse meio tudo está se transformando: pequenos drones dão surra em tanques, e robôs humanoides começam a substituir soldados. Funcionários de Google e Amazon exigiam que suas empresas não participassem de projetos de armas. Acabou isso. Os que reclamaram ou se calaram ou saíram.
Países com poder industrial forte sentam à mesa. Os outros vão para o cardápio e têm que se submeter.
Lamentável é ver uma eleição presidencial se aproximando e a pauta ser corrupção, segurança e outros temas que deveriam ter ficado no século passado. Para o novo mundo, interessam educação, engenharia, tecnologia, produtividade, reformas, melhoria radical do ambiente de negócios e… indústria.
Que Dani Rodrik vá pregar em outro lugar. Aqui não, violão.
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