O profissional do futuro é humano
Discussão deixa de ser o que aprendemos e passa a ser até onde podemos absorver sem perder a capacidade de decidir
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Entre a ideia de que o comportamento coletivo pode ser modelado e o fato de que a velocidade da mudança desorganiza qualquer tentativa de previsão, existe um descompasso que seguimos ignorando. Sistemas podem até ser compreendidos, mas a capacidade de absorvê-los não acompanha na mesma velocidade.
O arquétipo do “profissional do futuro” se consolidou como um consenso que poucos questionam e quase ninguém consegue definir. A expressão se impõe como promessa de adaptação contínua, mas não enfrenta o problema que a sustenta.
Ao projetar o profissional, preserva-se a ideia de que o trabalho pode ser tratado de forma isolada de quem o executa. Essa separação, que nunca se sustentou, agora deixa de funcionar, e o consenso começa a ser explicitamente questionado. E isso nunca foi assumido com esse grau de clareza.
Um executivo da NVIDIA, uma das empresas que hoje sustenta a base tecnológica da Inteligência Artificial, reconheceu recentemente que, em alguns casos, o custo computacional já supera o custo das próprias equipes humanas. Mesmo assim, o movimento continua.
Não é a eficiência que está guiando, é o sistema que se reorganiza e ela deixa de ser suficiente. O ponto não está na comparação em si, mas no fato de que ela muda o critério das decisões.
A requalificação, tida como uma resposta dominante ao futuro, há muito desconsidera que o mundo está em transformação estrutural, que a tecnologia está alterando profundamente a organização social e que o futuro não é mais a continuidade do presente.
Novas habilidades, atualização constante e adaptação ao ambiente tecnológico se repetem como resposta para um mundo que se altera diariamente, em que qualquer previsão já nasce errada.
A adaptação pressupõe um ambiente assimilável, em que a velocidade da mudança seja compatível com a compreensão e a internalização, mas isso está sendo corroído. Quando a transformação ultrapassa o limite de absorção, a adaptação deixa de ser solução e passa a ser ajuste contínuo, sem estabilidade.
Como consequência, organizações ampliam o uso de modelos, dados e projeções, ao mesmo tempo em que a leitura desses modelos sob pressão não evolui na mesma proporção. A sofisticação analítica cresce, mas a decisão se fragiliza.
O sistema pode apresentar padrões, mas a leitura desses padrões se torna instável. Assim, a ideia de “profissional do futuro” perde precisão e continua tratando competências técnicas como variável principal, enquanto o problema já mudou de lugar.
O que está em curso envolve limites cognitivos, atenção, construção de sentido e sustentação de identidade em ambientes de alta variação. O trabalho permanece relevante, mas deixa de organizar a discussão.
A pergunta muda de natureza. Não mais quais habilidades serão demandadas, mas que tipo de humano consegue operar com consistência em um ambiente que altera continuamente suas próprias regras.
A insistência em projetar o profissional mantém o debate no campo da gestão. Discutir o humano desloca o problema para um território menos controlável, mas mais aderente ao que já está acontecendo.
A transição não elimina a necessidade de desenvolvimento técnico. Reposiciona sua função. Competência continua relevante, mas não suficiente. Em algum ponto, a discussão deixa de ser o que precisamos aprender e passa a ser até onde conseguimos continuar absorvendo sem perder a capacidade de decidir.
JAQUES PAESé executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas.
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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.