O silêncio que fabrica maiorias
Nem toda maioria precisa existir para começar a decidir
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Em algum momento, paramos de responder ao que existe e passamos a responder ao que parece existir. É o consenso produzindo efeitos no comportamento coletivo, que raramente se orienta pela realidade, mas por uma leitura compartilhada. Daí surgem decisões em resposta a algo que nunca foi decidido, mas percebido.
Na semana passada, dei uma palestra e mediei uma mesa redonda. Ali apresentei a última parte da tríade de governança cognitiva que desenvolvi.
As conversas que surgiram depois ampliaram minha inquietude, sobretudo pela forma como certas posições já apareciam como resolvidas.
Sem perceber os efeitos colaterais em nós mesmos, contribuímos para que ambientes inteiros passem a se comportar em função de algo que parece dominante, mesmo que isso sequer exista.
Gerir informação já não basta e, em épocas como a que estamos vivendo, é talvez até ingênuo. A forma como a informação adquire legitimidade, como determinados sinais passam a operar como evidência e como certos silêncios são lidos como adesão molda a realidade percebida.
Esse desvio não é trivial.
Organizações costumam imaginar que decidem a partir de dados, diagnósticos, indicadores e posições debatidas. Isso é verdade apenas até certo ponto: muitas vezes, o que entra na decisão não é a realidade disponível, mas a leitura socialmente estabilizada dela. E leitura estabilizada não é sinônimo de verdade.
Muitas vezes, é apenas o resultado de quem pôde falar, de quem preferiu calar e de quem aprendeu qual posição custa menos.
A espiral do silêncio ajuda a explicar esse mecanismo. A substituição progressiva da realidade pela percepção do clima de opinião passa a operar como divergência reprimida. As pessoas não se orientam apenas pelo que é maioria, mas pelo que entendem que já venceu.
Uma minoria vocal pode adquirir aparência de consenso antes de se tornar maioria real. Uma maioria silenciosa pode se comportar como dissidência antes mesmo de ser derrotada.
O silêncio deixa de ser ausência de manifestação e passa a operar como fabricação de realidade. Não elimina a divergência. Rebaixa sua visibilidade. A percepção coletiva se move, o comportamento acompanha e aquilo que era impressão começa a adquirir contorno de fato.
Nada disso depende de mentira, mas de sinais, reputação, risco percebido, medo de isolamento, leitura imperfeita do ambiente e da assimetria entre quem pode errar em público e quem precisa medir cada palavra.
Não se trata, portanto, de opinião, mas da arquitetura cognitiva que define quais opiniões parecem autorizadas.
É aí que o dano se instala, muitas vezes elegante demais para ser percebido a tempo. Guerras, política, inovação, transição energética, emissão de carbono. Onde há debate, há uma espiral em funcionamento.
Conversas seguem sem conflito e parecem produtivas. Direcionamentos avançam sem resistência e parecem maduros. Narrativas ganham velocidade e parecem sólidas. Isso ajuda a explicar por que tantos erros coletivos sobrevivem em ambientes repletos de gente inteligente.
A espiral do silêncio mostra que sistemas podem operar acima da expressão honesta da realidade e dispensam censura formal. A pessoa não precisa ser silenciada. Basta perceber, com base no clima, que falar saiu caro demais. Que a verdade foi precificada.
A partir daí, o resto o próprio sistema resolve.
O consenso se adensa. A divergência fica invisível. A percepção substitui a realidade. E a aparência de coesão decide em cima de uma maioria que talvez nunca tenha existido.
JAQUES PAES é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.