Médicos fazem alerta para uso excessivo de celular por idosos
Uso excessivo do aparelho tem gerado dependência digital e preocupado médicos pelos impactos no sono, no convívio social e na saúde mental
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Décadas atrás, era comum associar o envelhecimento a rotinas mais tranquilas: avós costurando, cuidando das plantas ou jogando xadrez. Hoje, essa cena tem mudado.
O celular ganhou espaço na rotina da terceira idade e passou a ocupar horas do dia com redes sociais e aplicativos de mensagens. Em alguns casos, o uso excessivo tem gerado dependência digital e preocupado médicos pelos impactos no sono, no convívio social e na saúde mental.
Os números mostram o avanço dessa conexão. Dados da PNAD Contínua TIC, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que a parcela de brasileiros com 60 anos ou mais que possuem celular saltou de 66,6% em 2019 para 78,1% em 2024, o maior crescimento entre todas as faixas etárias do País.
No mesmo período, o acesso à internet também disparou: passou de 24,7% em 2016 para 69,8% em 2024.
A psiquiatra e psicogeriatra Maria Benedita Reis, professora do curso de pós-graduação em Psiquiatria da Emescam, observa que esse uso constante já reflete até mesmo em atividades do dia a dia.
“Tenho observado idosos que não querem deixar o celular de lado e aproveitar o tempo para praticar exercícios físicos, se socializar e até comer melhor, preparando ou ajudando a preparar seus próprios alimentos”, destaca.
“Muitas vezes, a solidão, a falta de oportunidades de socialização e de trabalho, a baixa visão, a falta de familiaridade com uma boa leitura, a comodidade e o afastamento dos familiares fazem com que alguns idosos passem o dia mexendo no celular e, principalmente, em aplicativos bobos, de memes”.
Fernanda Sperandio, geriatra e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Estado (SBGG-ES), alerta que o uso prolongado de telas está associado à piora da qualidade do sono, aumento do sedentarismo, dores musculoesqueléticas (principalmente em pescoço e mãos), além de impacto na saúde mental, como ansiedade.
A geriatra Caroline Pupim, professora da Emescam e vice-presidente da SBGG-ES, ressalta que a pessoa idosa no Brasil, de forma geral, por falta de políticas públicas inclusivas, tende ser mais isolada.
“É uma fase da vida em que muitos estão aposentados, com limitações físicas, lidando com inúmeros lutos e com poucas ferramentas para desenvolver novos projetos de vida”.
Algumas situações
Ajuda de psiquiatra e medicação
Em comentário no Instagram do Tribuna Online, uma seguidora relatou que a mãe idosa precisou de ajuda psiquiátrica após uso excessivo do celular.
Segundo ela, a idosa se isolou da família, evitava sair de casa e até receber visitas.
A mulher contou ainda que a mãe virava noites em redes sociais de vídeos e acreditava que as pessoas nos conteúdos estavam falando diretamente com ela. Após iniciar tratamento com medicação, segundo a filha, a mãe apresentou melhora.
Problema piorou na pandemia de covid
Uma aposentada de 70 anos identificou que havia desenvolvido uma relação de dependência com o celular e decidiu buscar tratamento. Segundo ela, o problema se intensificou durante a pandemia de covid-19. Como morava sozinha, o aparelho era sua companhia até na hora de dormir, prejudicando seu sono, além de afetar as tarefas domésticas.
Idosos com celular
Confira os números
66,6% para 78,1% foi o percentual de pessoas que tinham telefone móvel celular para uso pessoal De 2019 a 2024 no brasil.
O maior crescimento foi observado nessa população: 11,5 pontos percentuais (p.p).
Espírito Santo
O percentual de pessoas que tinham telefone móvel celular para uso pessoal cresceu de forma contínua entre 2019 e 2024.
Ano - % - total
2019 - 70,7% - 384 mil
2021 - 74,5% - 474 mil
2022 - 77,7% - 503 mil
2023 - 79,7% - 528 mil
2024 - 82,2% - 584 mil
Uso de internet por idosos
No Brasil, de 2019 para 2024, a proporção de idosos utilizando a internet subiu de 44,8% para 69,8%, a maior alta entre os grupos etários analisados.
Dados referentes a percentual de pessoas, no Espírito Santo, que utilizaram a internet no período de referência dos últimos três meses:
2019: 42,6% - 231 mil
2021: 54,5% - 347 mil
2022: 60,8% - 393 mil
2023: 63,7% - 422 mil
2024: 69,4% - 493 mil
Números nos EUA
Levantamento da Nielsen, repercutido pela revista The Economist, mostrou que: 10 horas por dia os adultos 65+ dos Estados Unidos passam consumindo mídia em telas
Isso representa 12% a mais do que pessoas de 35 a 49 anos e cerca de um terço a mais do que adultos de 18 a 34 anos.
Fique por dentro
Problema
O uso do celular torna-se problemático quando, por exemplo, o idoso negligencia outras atividades importantes ou usa o aparelho como única forma de lidar com emoções como tristeza e solidão.
Companhia
Muitas vezes, o celular aparece como uma forma de companhia para os idosos em um momento em que as conexões presenciais diminuem. O aparelho pode acabar sendo uma das poucas formas de interação disponíveis.
Confusão mental
Idosos que já apresentam alterações cognitivas, ou até mesmo quadros iniciais de demência, podem ter a confusão mental agravada pelo uso excessivo de redes sociais.
Compensação emocional
A aposentadoria, a viuvez e o isolamento social são fatores importantes para a utilização de celular por pessoas da terceira idade. O celular acaba funcionando como uma ferramenta de compensação emocional, oferecendo distração, contato social e sensação de pertencimento.
Tratamento
O acompanhamento psicológico é fundamental em casos de dependência digital. Em alguns casos, também pode ser necessário o acompanhamento médico e o uso de medicação.
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