Especialistas revelam o que mais provoca brigas e mortes no trânsito
Estresse, fatores emocionais e sensação de impunidade fazem motivos banais se transformarem em agressões físicas
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Discussões iniciadas por motivos banais, como uma buzina, uma fechada ou uma ultrapassagem, têm terminado em agressões físicas e até mortes no trânsito brasileiro. Especialistas apontam que fatores emocionais, estresse, consumo de álcool e uma cultura crescente de intolerância ajudam a explicar por que conflitos simples se transformam rapidamente em violência.
Casos recentes, como o do motoboy de 24 anos baleado na boca em Vitória, durante uma discussão, e o do homem de 41 anos que morreu após levar um soco durante uma briga de trânsito em Belo Horizonte, Minas Gerais, expõem uma escalada de agressividade nas ruas.
O delegado Maurício Gonçalves, titular da Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito, afirma que os episódios investigados mostram um padrão recorrente de reações impulsivas e desproporcionais.
“Situações simples, como uma fechada, buzina, ultrapassagem ou discussão após uma colisão leve, acabam sendo levadas para o lado pessoal. Muitas vezes a pessoa já vem estressada e reage de forma totalmente desproporcional.”
Segundo o delegado, homens adultos jovens e de meia-idade aparecem com maior frequência entre autores e vítimas. Ele também destaca que o álcool e a sensação de impunidade contribuem para o agravamento da violência.
O capitão Anthony Costa, consultor em Segurança Viária, explica que muitos condutores passam a enxergar os demais motoristas como obstáculos no trânsito, e não como pessoas.
“O carro torna-se uma extensão do corpo e do território pessoal. Quando alguém impede a passagem, o cérebro interpreta aquilo como uma invasão territorial e não apenas como um erro de trânsito”, ressaltou.
O especialista alerta ainda que os conflitos crescem em etapas até chegarem à agressão física. “A interrupção deve ocorrer no início, para não dar vazão à raiva”, disse.
Para André Cerqueira, engenheiro, especialista em Segurança no Trânsito e membro do Movimento Capixaba para Salvar Vidas no Trânsito (Movitran), a relação emocional criada entre motorista e veículo também influencia o comportamento agressivo.
“O trânsito é um local de altíssimo risco e boa parte das pessoas está indo muito despreparada para esse ambiente estressante, onde a vida não tem ‘replay’”, concluiu.
“Ele está com o psicológico completamente abalado”, diz pai de motoboy baleado em Vitória
O técnico em Enfermagem Fernando José da Silva, 42 anos, é o pai do motoboy de 24 anos baleado na boca durante uma discussão no trânsito em Vitória, no último dia 26. Segundo ele, o motoboy mora com a esposa e a filha de 4 anos e a família precisa de ajuda para os tratamentos do jovem.
A Tribuna - Como foi a briga no trânsito, segundo o relato do seu filho?
Fernando José da Silva - Ele estava de moto e o motorista de um carro fechou ele. Meu filho falou que mostrou o dedo para o motorista, que viu pelo retrovisor.
Mais na frente, essa pessoa baixou o vidro e falou: “Se você arranhasse o meu carro, você era uma pessoa morta”. Meu filho falou que ia seguir caminho, mas o motorista atirou nele e fugiu.
Como está o seu filho?
Está em recuperação e com muitos cuidados que o cirurgião bucomaxilofacial orientou e toda a equipe lá do hospital orientaram.
Quais foram as principais consequências físicas?
Ele perdeu a maioria dos dentes. Ficou apenas acho que com três ou quatro dentes na boca. E teve perda óssea. Segundo o cirurgião bucomaxilofacial, ele perdeu a parte da mandíbula superior e uma parte considerável do osso. A língua sofreu uma perda, teve queimadura e o médico fez de tudo para reconstruir.
Como está a alimentação e o acompanhamento médico?
A alimentação dele é a questão que mais preocupa a família. Ele não consegue se alimentar direito, então é líquida.
E como está o estado psicológico do seu filho?
Ele quer trabalhar, mas não pode. Se trabalhar, botar capacete, tomar sol, pode prejudicar a cirurgia. O psicológico dele está totalmente abalado, pensa um monte de coisa, não quer ver pessoas, está com vergonha e retraído.
Que ajuda o senhor busca?
Ajuda financeira para o tratamento dele, prótese, implante, psicólogo. Ele não tem plano de saúde e precisa voltar a viver, porque ele quer trabalhar, mas não pode.
Estamos conseguindo os remédios na unidade de saúde do bairro, onde tentamos atendimento psicológico. Quem puder nos ajudar, pode entrar em contato no Instagram @fjsaude.
O senhor tem alguma informação sobre a investigação?
Não sabemos quem fez isso com meu filho, mas confiamos no trabalho da Polícia Civil. Acredito que a investigação está em andamento e que a justiça vai ser feita.
Investigação
A Polícia Civil informa que o caso segue sob investigação e detalhes não serão repassados. Informações podem ser compartilhadas de forma sigilosa por meio do Disque-Denúncia (181).
O que dizem os especialistas
“Riscos extremos”
“Situações simples, como uma fechada, buzina, ultrapassagem ou discussão após uma colisão leve, acabam sendo levadas para o lado pessoal. O álcool reduz o controle emocional, aumenta a impulsividade e prejudica a percepção de risco. O indivíduo assume riscos extremos porque acredita que as consequências penais serão pequenas.”
Maurício Gonçalves, delegado titular da Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito
“Sensação de poder”
“Ter um veículo é ter uma chancela de poder, o que mexe com a mente das pessoas. Quanto maior o veículo, mais essa sensação aumenta. Três fatores influenciam o comportamento no trânsito: o empoderamento que a pessoa sente, o ambiente estressante e o despreparo do ser humano.”
André Cerqueira, engenheiro, especialista em Segurança no Trânsito e membro do Movitran
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