'Achei que era labirintite', diz ex-prefeito de Cariacica sobre descoberta de tumor
Juninho, que passará por cirurgia nesta sexta-feira (8), conta que tontura e perda da audição foram os principais sintomas da doença
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Depois de enfrentar a perda da esposa, a modelo Nabila Furtado, para um câncer metastático, no ano passado, o ex-prefeito de Cariacica, o empresário Geraldo Luzia Júnior, o Juninho, de 55 anos, agora se prepara para uma nova batalha: uma cirurgia delicada para retirada de um tumor benigno na cabeça.
O diagnóstico do schwannoma vestibular – tumor benigno que se origina das células de Schwann, do nervo vestibulococlear – veio após anos convivendo com excesso de cera no ouvido, tontura e, por último, a perda de audição.
Foi em 2020, segundo Juninho relatou em entrevista ao Estúdio Tribuna Online, que os primeiros sintomas apareceram: desequilíbrio frequente e tontura. Na época, ele acreditava que os sintomas fossem causados por labirintite. Já a produção excessiva de cera nos ouvidos era um problema antigo, desde a adolescência, e se intensificou nos últimos anos.
Nesta quinta-feira (7) ele embarca para São Paulo, onde vai passar pela cirurgia com uma equipe do Hospital Sírio Libanês na sexta (8), às 7 horas.
“Estou muito confiante. Primeiro, porque temo a Deus, e segundo porque sempre fui assim e lutei muito pelas coisas. Na minha cabeça vou chegar lá, fazer a cirurgia e vou sair sem sequelas”, afirmou.
Doença
A otorrinolaringologista Nathalia Manhães explica que não há relação causal direta entre produção excessiva de cerúmen (cera) e o schwannoma vestibular. O sintoma mais precoce e frequente, em mais de 90% dos casos, é a perda auditiva neurossensorial assimétrica, que pode se manifestar de forma súbita, com a sensação de diminuição da audição de uma hora para outra.
A segunda queixa mais frequente é o zumbido – que pode aparecer como sintoma isolado ou associado à perda auditiva – e tontura ou desequilíbrio.
O neurocirurgião Walter Fagundes, PhD em Neurocirurgia, professor e pesquisador da Ufes, explica que o tumor tem um crescimento geralmente lento, e que o tratamento vai depender de alguns fatores, como idade, sintomas e tamanho.
No caso de cirurgia aberta, o médico explica o procedimento. “É feita com microscópio, sendo o procedimento complexo e delicado, com duração entre seis a 14 horas, de acordo com o tamanho da lesão”.
“Me assusta não saber como vou ficar”, desabafa ex-prefeito
A Tribuna - Quais sintomas você teve e como chegou a esse diagnóstico?
Juninho - É um tumor benigno, mas complexo. Mas chegamos a ele por causa de cera no ouvido. Eu procurei a otorrinolaringologista porque sempre ficava surdo por causa de cera no ouvido, situação que acontece desde a adolescência. Só que, em 2024, devido à sequência de limpeza, a médica pediu a ressonância.
No final de 2024, eu fiz o exame, mas estava em um momento mais crítico da doença da Nabila (esposa do empresário, que morreu de complicações por um câncer de mama em abril do ano passado), e minha atenção era toda voltada para ela. Passaram Natal, Ano-Novo, férias... Minha vida seguiu e aconteceu o que todo mundo sabe (a morte de Nabila).
Quando retornou à médica?
Em outubro do ano passado, a cera voltou a me incomodar, e fui perdendo a audição do ouvido direito. Em fevereiro deste ano, fui à médica, levei o exame do final de 2024 e, quando ela olhou, me disse que eu estava com tumor.
Você não sentiu zumbido?
Lembrei que, em 2020, quando ainda era prefeito, levantando da cama eu fiquei tonto e me desequilibrei. Achei que era labirintite, e isso foi ficando mais frequente. Raramente sentia um zumbido.
Como foi receber esse diagnóstico?
Foi um impacto. Passa um filme na cabeça. Além disso, por mais que seja benigno no primeiro momento, temos de fazer outros exames. Tudo isso passou na minha cabeça.
Qual sua expectativa para a cirurgia?
É uma cirurgia delicada. Vai durar pelo menos quatro horas e meia. Depois eu fico dois dias na UTI, mais quatro no quarto e depois vou ficar mais 15 dias em São Paulo, com meu irmão.
Tem possibilidade de sequelas?
Terei sequelas faciais, mas, segundo o médico, serão temporárias. Recupero tudo em até dois anos. Mas estou muito confiante.
Outras sequelas que terei serão na deglutição e na fala, mas também recupero em até dois anos. As outras questões vou ficar sabendo após a cirurgia. Estou muito confiante. Primeiro, porque temo a Deus, e segundo porque sempre fui assim e lutei muito pelas coisas. Na minha cabeça, vou chegar lá, fazer a cirurgia e sair sem sequelas.
O que mais te assustou nesse processo?
É não saber exatamente como vou ficar depois, é ficar sabendo das coisas pouco a pouco. Porque passei isso com a Nabila. E, dependendo das sequelas, eu não ter como reagir. E, por isso, tomei algumas providências. Uma delas foi tirar a possibilidade de voltar com candidatura este ano, para não dar esperança a ninguém. A segunda coisa é, dependendo das sequelas, se vou continuar trabalhando, como vou sustentar minha família. Isso é uma coisa sobre a qual ainda tenho dúvidas.
Como foi contar para sua família sobre a doença?
Não contei para ninguém até passar Carnaval, férias. Viajei para os Estados Unidos e não contei para ninguém. Teve uma festa de família e também não contei. Um dia, chamei toda a minha família na casa da minha mãe para comer uma pizza e falei: “Antes de comer, quero dar uma notícia, mas já adianto que é benigno, que estou tranquilo, mas terei de fazer uma cirurgia na cabeça”.
Por que decidiu tornar isso público agora?
Porque eu fiquei com receio de aparecer diferente depois da cirurgia. Se as pessoas me virem com o rosto paralisado ou dificuldade para falar, vão entender o motivo.
Está indo confiante!
Muito confiante e acreditando em Deus. Estou pedindo a Deus o seguinte: “Deus, faça com que os médicos não errem na mão e me dê todo o discernimento do mundo para eu fazer a condução certa após a cirurgia”.
Durante esse tempo em que recebeu o diagnóstico, houve algum tipo de tratamento que você fez até agora?
Eu já perdi 6 quilos. Comecei a fazer atividade física com mais frequência. O dia em que estou tonto, eu faço. O dia em que não estou tonto, eu faço do mesmo jeito.
Quais são os seus medos neste momento?
O principal medo é não continuar com as mesmas condições funcionais para tocar a minha vida. Porque eu acho que ainda posso ajudar muita gente. Se eu tivesse tudo isso garantido... Eu não tenho medo da morte. Isso já está resolvido em mim. Porque tudo o que eu faço, faço com intensidade e tento sempre não prejudicar ninguém. O tempo inteiro eu tento fazer o bem. Se eu consigo, ótimo. Se eu não consigo, eu tento rever para poder melhorar.
Meu único medo hoje é esse: eu não poder finalizar algumas coisas que acho que tenho de finalizar, principalmente para a minha família, para as minhas filhas, que são minha grande preocupação.
Com tudo o que viveu com a Nabila, principalmente nos últimos anos, o que aprendeu com ela?
Eu estou evitando falar muito, porque (choro)... Você não faz ideia do que é ficar ao lado de uma pessoa quase 24 horas e não saber o que está fazendo. Ver aquela pessoa bonita, ativa, passar a ficar do seu lado, delirando... (mais choro). Era muito medicamento. Era muita dor. Nabila tomava morfina. E a gente, às vezes, tinha de fingir que não estava sentindo dor até os pais dela irem embora. Depois, comigo, ela desmoronava. E a gente fazia de tudo: era gelo, compressa. Eu ficava apertando o braço dela até ela dormir, porque a compressão do tumor afetou o músculo. Doía muito o braço dela... vocês não fazem ideia... Hoje eu não consigo dormir na nossa cama.
E, com isso, você aprende. Aprende que, se tiver de fazer algo por alguém, faça enquanto está vivo. Faça enquanto está próximo. Não deixe para fazer depois. Não tenha vergonha. Eu fui aprendendo com a vida.
Eu não dava um beijo no meu pai. Aquela coisa de machismo, do jeito que fui criado. Depois de um tempo, eu passei a dar beijo no meu pai. E hoje eu dou beijo no rosto de qualquer homem que seja meu amigo, que seja próximo.
Eu tentei fazer tudo o que eu podia por ela em vida. Fui aprendendo a me doar também, e isso aprendi com ela. Outra coisa que aprendi foi a força de vontade que ela tinha de viver. Às vezes, ela estava sentindo dor, mas saía comigo. Fazia de tudo para as pessoas não perceberem que estava sofrendo. Ela sempre deu catequese na igreja e tentou manter isso enquanto pôde. Foram coisas que eu fui vendo nela e fui entendendo. E a última coisa que aprendi é que você sempre precisa de alguém. Se não é agora, lá na frente você vai precisar.
E qual a mensagem que você deixa com esse diagnóstico?
Eu tive duas preocupações no momento de tornar público. A primeira é para que as pessoas não estranhassem a hora em que me vissem de uma outra forma. Para as pessoas saberem que isso que estou passando pode acontecer com qualquer pessoa.
A segunda é que não ignorem sintomas. Não façam automedicação. Não façam autodiagnóstico. Por mais que tenha o Google, não vá nessa vibe. Porque a gente nunca sabe o que pode estar por trás daquela dorzinha, da cera no ouvido, da tontura ou do desequilíbrio.
Entenda
Schwannoma vestibular
- Também chamado de neuroma acústico ou neurinoma vestibular, é um tumor benigno que se origina das células de Schwann do nervo vestibulococlear.
- Hipoacusia (perda auditiva) é o sintoma mais precoce e frequente, em 90% dos casos. Pode haver também zumbido, tontura ou desequilíbrio. A progressão dos sintomas se relaciona com o tamanho e crescimento do tumor; em tumores maiores, pode ocorrer paralisia facial.
- A cera do ouvido em si não causa e nem predispõe ao tumor, mas pode mascarar os sintomas iniciais.
- O schwannoma vestibular pode surgir em qualquer pessoa, embora a maioria dos diagnósticos ocorre entre os 40 e 50 anos de idade.
- O tratamento pode ser por observação, cirurgia, radioterapia ou radiocirurgia.
- A experiência do cirurgião faz diferença sobre o desfecho. Perda auditiva e paralisia facial são as complicação neurológicas mais frequentes.
Fonte: Nathalia Manhães, otorrinolaringologista.
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