O Espírito Santo grita alto: o rock não morreu e nunca saiu daqui
Show do Guns N’ Roses no Kleber Andrade reúne 30 mil, sob chuva, e reforça a força da cena roqueira no Espírito Santo
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Riffs de guitarra cortando o ar, amplificadores no talo e vozes em uníssono: foi nesse clima que o Espírito Santo, literalmente, pocou, no show do Guns N' Roses em Cariacica. A cena não deixa dúvida — por aqui, vamos pro “rock que é massa”, sem cerimônia e com identidade própria.
Por muito tempo, decretaram o fim do rock. Disseram que perdeu espaço, que deixou de ser vendável, que outras sonoridades ocuparam o lugar das guitarras distorcidas. Basta olhar com atenção, e sobretudo ouvir, para perceber que essa narrativa não se sustenta.
O rock pode até não ocupar o centro da indústria, mas segue pulsando onde sempre foi mais forte, na experiência coletiva, na identidade e na resistência cultural. Poucos lugares demonstram isso com tanta clareza quanto o Espírito Santo.
O que se viu em Cariacica, com mais de 30 mil pessoas no Estádio Kleber Andrade, não foi apenas mais um show. Foi um recado. O rock continua mobilizando multidões e o público capixaba está longe de ser coadjuvante.
Debaixo de chuva, ninguém arredou o pé. Houve coro em clássicos, celulares acesos e uma energia que não se fabrica, se constrói. É nesse ponto que o rock se diferencia. Enquanto alguns gêneros seguem tendências de consumo, ele se mantém como território de pertencimento.
E é justamente aí que o rock se diferencia. Enquanto outros gêneros são frequentemente moldados por tendências de consumo, o rock permanece como uma espécie de território simbólico. Não depende apenas de algoritmos ou vitrines: depende de comunidade.
No Espírito Santo, essa comunidade está viva — e em expansão. Prova disso são os festivais que ocupam estacionamentos e áreas abertas de shoppings, misturando gastronomia, bandas autorais e tributos. Eventos que, semana após semana, reúnem público fiel, diverso e engajado. Gente que não apenas escuta, mas vive o rock.
Há um histórico que não pode ser ignorado. O estado já recebeu nomes como Scorpions, Paul McCartney, Angra e Nazareth — que retorna em 2026. Não se trata de novidade, mas de retomada.
O show do Guns N’ Roses recoloca o Espírito Santo nesse mapa. Mais do que isso: mostra que existe demanda reprimida. Um público disposto, apaixonado e numeroso. Um estado que reúne estrutura, localização estratégica e, sobretudo, uma cena que nunca deixou o rock morrer — apenas continuou tocando, muitas vezes longe dos holofotes.
Talvez o erro esteja em medir o rock pelos mesmos parâmetros de outros gêneros. Ele não precisa dominar rankings para existir com força. Sua lógica é outra: menos imediatista, mais enraizada.
O Espírito Santo entendeu isso. E provou. Se depender do que se viu em Cariacica, o recado está dado: há espaço, há público e há vontade. Falta apenas que o circuito internacional volte a olhar com mais atenção para esse pedaço do mapa. Porque, por aqui, quando a guitarra chama, ninguém hesita: é resposta imediata, é presença — é ir, sem pensar duas vezes, pro bom e velho “rock que é massa”.
RODRIGO ELIAS é jornalista
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