Receitas centenárias que atravessam gerações
Guardiãs da tradição centenária, avó, filha e neta mostram como a culinária caseira reforça os vínculos e a história local
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Em regiões do interior capixaba, receitas centenárias podem cumprir um papel que vai além da alimentação. Funcionam como registros vivos da memória coletiva, heranças afetivas que atravessam gerações e preservam modos de preparo capazes de narrar a história de comunidades inteiras.
Nesse cenário, a trajetória da família Bassetto ganha destaque. Aos 70 anos, a aposentada Normélia Bassetto, a “nonna” do lugar, é a principal guardiã de uma receita que resiste ao tempo. O macarrão caseiro feito por ela carrega uma tradição feminina: Normélia aprendeu com a mãe, que, por sua vez, recebeu o conhecimento da geração anterior.
Ao lado dela estão a filha, Simoni Bassetto Prest, de 50 anos, e a neta, Maria Eduarda Bassetto Prest, de 16 anos, responsáveis por manter viva a prática construída no ambiente doméstico. Na cozinha, o preparo segue um ritual transmitido de forma oral e pela observação.
Farinha, ovos e técnica se combinam em um processo que dispensa medidas precisas. “É no olho e na experiência”, resumiu Normélia.
Além da receita tradicional, a família também produz versões com espinafre, incorporando variações sem descaracterizar a essência do prato. As massas de lasanha, abertas à mão, mantêm o padrão herdado: finas, delicadas e feitas com paciência.
Para Simoni, o valor está no modo de fazer. “A gente aprende na convivência. Não é só a receita, é o cuidado e o tempo dedicado”, afirmou.
Já Maria Eduarda, representante da terceira geração, ressaltou o vínculo afetivo. “É um momento nosso, de estarmos juntas. A cozinha se torna o motivo desse encontro.”
Segundo Normélia, em Araguaia, Marechal Floriano, esse tipo de prática ainda é frequente, especialmente entre famílias de origem italiana, nas quais a culinária ocupa lugar central no cotidiano.
Ao reunir diferentes gerações em torno do mesmo preparo, receitas como a da família Bassetto reforçam seu caráter de patrimônio imaterial. Mais do que pratos, são narrativas transmitidas de mãe para filha e de avó para neta, assegurando a continuidade de tradições centenárias.
Na região serrana do Estado, há outros exemplos semelhantes, com famílias que preservam receitas herdadas ao longo dos anos, como polenta, massas e pratos típicos que seguem presentes à mesa.
Família tem museu particular
Entre fornadas e o preparo de massas caseiras e da broa de fubá, Normélia e a filha, Simoni, organizaram, no terreno da família, também em Araguaia, um espaço que funciona como um museu particular. O local reúne utensílios e móveis antigos ligados à história da cozinha da família.
Normélia explicou que a broa também segue uma receita transmitida entre gerações e se mantém como um dos principais símbolos dessa tradição. O preparo é artesanal e preserva o mesmo padrão de décadas atrás.
Não há medidas exatas. O ponto da massa, o tempo de forno e a textura final são definidos pela experiência. “É uma receita antiga, que vem de antes, e a gente continua fazendo do mesmo jeito”, disse.
No quintal, o espaço reúne panelas de ferro, formas antigas e peças de madeira que fizeram parte do cotidiano de outras gerações. Muitos desses utensílios foram usados no preparo das receitas que ainda hoje estão presentes à mesa.
O ambiente funciona como um acervo doméstico. Os objetos ajudam a contar a história de uma cultura alimentar construída no dia a dia, marcada pela repetição de práticas e pela transmissão de saberes dentro de casa.
Para a aposentada, preservar esses itens e manter as receitas ativas é uma forma de continuidade. Entre o fogão e o museu, a tradição segue integrada à rotina e mantém vivas referências que atravessam o tempo. “Amo muito cozinhar, me faz muito bem”, finalizou Normélia.
Guardiã da cozinha aos 90 anos
Ainda em Araguaia, outra guardiã da culinária italiana mantém viva a tradição nas panelas. Aos 90 anos, Lourdes Dadalto é uma das responsáveis pelos sabores servidos na Casa do Nonno, um pequeno museu onde participa do preparo de pratos típicos durante festas e encontros na comunidade.
Entre as receitas, a polenta, o macarrão e a linguiça ganham destaque. Tudo feito a partir de técnicas aprendidas ainda na infância, dentro de casa. Lourdes contou que o conhecimento veio da mãe e da avó, em um processo marcado pela convivência e pela repetição dos gestos na cozinha.
“Aprendi com a minha mãe e com a minha avó. Naquele tempo, a gente ficava por perto, olhando e ajudando. Era assim que se aprendia”, lembrou.
Mesmo com o passar dos anos, ela segue ativa nos preparos, especialmente em ocasiões festivas, quando a cozinha se transforma em ponto de encontro. Para Lourdes, manter essas receitas é uma forma de preservar a própria história e reforçar vínculos.
“Eu gosto de fazer, sempre gostei. Quando tem festa, eu faço questão de ajudar, de estar ali junto. A comida reúne as pessoas e traz alegria”, afirmou.
Segundo ela, o segredo não está apenas nos ingredientes, mas no cuidado durante o preparo. “Não é só fazer por fazer. Tem que ter paciência, tem que ter carinho. A gente faz pensando nas pessoas que vão comer. Dar continuidade às receitas é uma responsabilidade com as próximas gerações”, finalizou.
“Nonna” mais velha da Casa Nostra
Venda Nova do Imigrante é outra região onde a preservação de tradições encontra na cozinha um de seus principais caminhos. Aos 73 anos, Maria das Graças Delazare é a “nonna” mais velha da Casa Nostra, espaço no distrito de Pindobas que também abriga um museu.
No local, ela assume o preparo das refeições aos fins de semana, com o objetivo de manter viva a paixão pela herança italiana e compartilhar com as novas gerações sabores que reforçam laços familiares e resgatam memórias afetivas.
Guardiã de receitas presentes na família há décadas, Maria das Graças dedica-se à cozinha com constância. Para ela, o preparo dos pratos vai além da rotina. Representa uma forma de expressão e de preservação das raízes.
Entre as receitas, a polenta ocupa lugar central. Servida ainda quente, com textura uniforme e sabor marcante, tornou-se uma das opções mais procuradas por quem visita o espaço. “A polenta sempre esteve presente na nossa mesa. É simples, mas tem um valor enorme, porque traz lembranças da vida em família”, afirmou.
A nonna também relembrou a infância ao lado da mãe, na cozinha. “Quando eu era criança, minha mãe acordava cedo e começava a mexer a polenta no fogão a lenha. Eu ficava por perto, aprendendo. Hoje, quando preparo, sinto que estou dando continuidade a essa tradição.”
Segundo ela, muitos visitantes associam o sabor da receita a lembranças pessoais, que vão além do paladar.
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