Escala 6x1: o debate que expõe o desafio do trabalho no Brasil
Debate sobre reduzir jornada volta à pauta, mas Brasil tem produtividade estagnada; discussão envolve informalidade, emprego e saúde mental
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O debate sobre o fim da escala 6x1 voltou ao centro das discussões no Brasil, impulsionado por demandas legítimas por maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Jornadas extensas e pouco previsíveis impactam diretamente a saúde mental e a qualidade de vida dos trabalhadores, tornando essa pauta relevante em uma sociedade em transformação.
No entanto, ao avançar para o campo econômico, surge uma questão central: o país possui produtividade suficiente para sustentar a redução da jornada sem comprometer empregos e renda? A jornada legal brasileira, de 44 horas semanais, está dentro do padrão de economias emergentes. Já países que trabalham menos horas atingiram esse estágio após décadas de ganhos consistentes de produtividade, justamente o ponto frágil do Brasil.
Dados recentes mostram que a produtividade do trabalho no país cresceu apenas 0,1% em 2024, mantendo uma trajetória de estagnação nos últimos anos. Esse cenário não reflete falta de esforço do trabalhador, mas limitações ligadas à educação, qualificação, tecnologia e gestão.
O debate também precisa considerar a realidade do mercado de trabalho. Cerca de 38% dos trabalhadores estão na informalidade, enquanto o desemprego atingiu níveis historicamente baixos. Mudanças na jornada, portanto, podem ter impactos não apenas econômicos, mas também sociais, especialmente para jovens que buscam a primeira oportunidade formal.
A discussão sobre jornada está diretamente ligada à saúde mental, mas não depende apenas da quantidade de horas trabalhadas. Ambientes tóxicos, pressão excessiva e gestão inadequada podem gerar adoecimento mesmo com jornadas menores. Por outro lado, condições de trabalho saudáveis e previsíveis reduzem significativamente o estresse.
Focar exclusivamente na escala 6x1 pode simplificar um problema mais amplo. O mercado de trabalho atual é mais complexo, com modelos híbridos, digitais e flexíveis. A questão central passa a ser: como construir um mercado mais produtivo, moderno e equilibrado?
O verdadeiro desafio do Brasil não está apenas na redução da jornada, mas na capacidade de transformar horas trabalhadas em desenvolvimento, aprendizado e crescimento. Para isso, é essencial alinhar produtividade, qualificação e oportunidades.
Países que hoje trabalham menos alcançaram esse patamar porque produzem mais por hora. Se o Brasil deseja seguir esse caminho, a prioridade deve ser aumentar sua produtividade e preparar o mercado para o futuro, indo além da simples mudança na escala de trabalho.
RODRIGO DIB é Superintendente Institucional do Centro de Integração Empresa-Escola - CIEE
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