O capixaba defendeu o conhecimento
Trajetória de Osman Francischetto reforça a importância da ciência e da assistência técnica no campo
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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Há homens que não aparecem todos os dias nas manchetes, mas permanecem nas estruturas que ajudam o Estado a ficar de pé. Osman Francischetto de Magalhães foi um desses homens.
Sua partida nos alcança primeiro pelo lugar mais íntimo, o da família. Perdemos um avô, um pai, uma presença de afeto, orientação e exemplo. Mas a dimensão de sua vida não cabe apenas na saudade de casa. Ela também está espalhada pelo campo capixaba, pelas instituições que ajudou a erguer, pelas políticas públicas que defendeu e pela ideia, ainda atual, de que o conhecimento só cumpre seu papel quando chega a quem trabalha a terra.
Não há futuro no campo sem informação.
Dr. Osman pertenceu a uma geração que compreendeu cedo que a agricultura não avançaria apenas com esforço individual. Era preciso levar assistência técnica, crédito, informação, pesquisa e organização ao produtor rural. Foi um dos fundadores da Acares, criada em 1956 e origem do atual Incaper, instituição decisiva para a extensão rural e para a pesquisa agropecuária no Espírito Santo. Como diretor desde sua fundação, deixou sua marca em uma visão pública do campo, na qual o agricultor não era personagem secundário, mas o centro da política de desenvolvimento.
Essa talvez seja uma das grandes vanguardas de sua trajetória. Antes de o agronegócio brasileiro ganhar a escala, a tecnologia e a presença internacional que tem hoje, ele já entendia que a prosperidade no campo depende da ponte entre ciência e prática. O extensionismo rural, para ele, era uma forma de justiça produtiva. Era a presença do Estado e do conhecimento ao lado do agricultor, especialmente do pequeno e médio produtor, para que a lavoura produzisse mais, a renda melhorasse e o interior tivesse futuro.
Sua carreira atravessou fronteiras. Formado pela Universidade Federal de Viçosa, trabalhou no México na década de 1960, a serviço da FAO, organismo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, e teve passagens citadas por instituições internacionais, como o Banco Mundial e organismos de capacitação na América Central. Para um agrônomo capixaba de sua geração, isso não era apenas currículo. Era sinal de abertura ao mundo, curiosidade técnica e compromisso com uma agricultura capaz de dialogar com os grandes desafios da fome, da produção e do desenvolvimento.
Na vida pública, foi secretário de Estado da Agricultura entre 1974 e 1976 e participou da idealização da Ceasa no Espírito Santo, uma estrutura que ajuda a ligar produção, abastecimento e consumo. Esse ponto é importante porque, muitas vezes, o cidadão só percebe a agricultura quando o alimento encarece ou falta. Ele olhava antes. Enxergava a cadeia inteira. Sabia que o campo precisava produzir, mas também escoar, vender, abastecer cidades e sustentar famílias.
Por isso, homenageá-lo não é apenas recordar uma biografia admirável. É reconhecer uma herança. Ele quis ver o agronegócio prosperar, mas nunca separado do agricultor. Quis produtividade, mas com orientação. Quis desenvolvimento, mas com presença humana. Quis instituições fortes, porque sabia que uma safra passa, mas uma boa estrutura atravessa gerações.
Hoje, recebemos esse legado com honra e responsabilidade. No café, no agro, na vida pública ou na vida familiar, seguimos diante da mesma pergunta que guiou boa parte de sua caminhada: como transformar conhecimento e levá-lo a quem precisa? Talvez essa seja a melhor forma de manter o pai, o avô, o Dr. Osman, presente — não apenas no nome, na memória ou na saudade, mas no compromisso de continuar levando luz, técnica e dignidade ao campo.
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