Não é só o Irã
Episódios recentes revelam contradições no governo Trump
José Vicente de Sá Pimentel
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O mundo inteiro é bombardeado todos os dias pelos tuítes de Trump. Com suas intimidações e recuos, ora truculento, ora TACO (Trump Always Chickens Out/Trump Sempre Amarela), ele surpreende, escandaliza e atordoa.
A tática funcionou durante o primeiro ano do segundo mandato e o presidente manteve a popularidade, lastreada sobretudo na guerra à imigração. Agora, porém, há cada vez mais evidências de que o governo bate cabeça. Dois episódios recentes ilustram essa tendência.
A PF brasileira e o Departamento de Investigações de Segurança Interna (HSI) dos EUA mantêm há mais de 20 anos um acordo bilateral para combater crimes transnacionais. Esse acordo prevê trocas de agentes para facilitar os contatos em cada país. Nesse contexto, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho trabalhava junto ao Serviço de Imigração e Alfândega, o famoso ICE, desde 2023.
É de conhecimento geral que o ex-deputado federal Alexandre Ramagem, condenado pelo STF a mais de 16 anos de prisão por envolvimento no atentado golpista de 8 de janeiro de 2023, fugiu do Brasil, clandestinamente, no ano passado. Teve por isso o passaporte diplomático cancelado pela Câmara Federal e se encontra sem documentação válida nos EUA, sendo, portanto, alvo natural do trabalho do ICE.
Detido em Orlando, devido, segundo consta, a uma infração de trânsito, Ramagem foi solto dois dias depois e pediu asilo político. Paralelamente, o delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho foi expulso dos EUA “por tentativa de manipular o sistema migratório americano”. A manipulação se deveria ao fato de o delegado ter trabalhado com a polícia local para prender e deportar o ex-deputado fugitivo. Ora, facilitar o trabalho com as instâncias locais era exatamente um dos objetivos da troca de agentes prevista no acordo bilateral. Está claro que houve interferência política de alguém na Flórida favorável aos parceiros de Ramagem e contrário à cooperação entre Brasil e EUA. Até o momento, nenhuma autoridade de hierarquia mais alta foi capaz de corrigir a violação do acordado. Sendo assim, a boa prática diplomática determinou, pelo princípio da reciprocidade, a expulsão também do agente americano, o que é lamentável, dada a importância da repressão ao crime.
O segundo episódio que quero citar, para ilustrar as complicações que rondam o atual governo americano, envolve o empresário Paolo Zampolli, notório desde que, numa entrevista à emissora de TV italiana RAI, fez declarações abjetas sobre as mulheres brasileiras. É um desses empresários cheios de ideias, partiu dele a sugestão de substituir o Irã pela Itália na próxima Copa do Mundo. Velho amigo de Trump, foi quem lhe apresentou a modelo eslovena Melania Knauss, durante a Fashion Week de 1998.
Dono da agência ID Models, Zampolli veio a conhecer, por volta de 2002, a modelo brasileira Amanda Ungaro, então com 17 anos. Os dois viveram juntos cerca de vinte anos e tiveram uma separação litigiosa, com brigas homéricas pela guarda do filho. Amanda foi morar em Miami, onde acabou sendo acusada de operar uma clínica de estética sem licença médica, presa pelo ICE e deportada em meados do ano passado.
Veio recentemente à tona que foi Zampolli que instigou o ICE a seguir os rastros da ex-mulher, que estava nos EUA sem documentação válida. Aí temos mais uma evidência de como o Serviço de Imigração e Alfândega é poroso e sensível às inquietações dos amigos.
Habitualmente discreta, Melania Trump causou sensação ao convocar, sem explicação prévia e sem participação de sua assessoria, uma conferência de imprensa na Casa Branca no dia 9 último. Estava brava. Negou que tivesse tido um relacionamento com Jeffrey Epstein, sentenciou que “as mentiras que me ligam a ele precisam acabar hoje”, e acrescentou que “as pessoas que estão mentindo sobre mim são desprovidas de padrões éticos”.
As declarações teriam repercutido muito mais se os jornalistas, que não puderam fazer perguntas, soubessem qual teria sido a causa imediata dos esclarecimentos. Houve especulações de que o escândalo Epstein tocara uma zona sensível, que ninguém, contudo, soube identificar. Agora, porém, as coisas parecem se encaixar. Numa conta de X, Amanda Ungaro prometeu “expor tudo o que sabe” sobre Trump, a quem qualificou de pedófilo. Na sequência lançou a Melania uma ameaça contundente: “Tome cuidado comigo, sua idiota”. Aí vem coisa.
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