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ENTRE PRATELEIRAS

A materialidade nunca saiu do centro

Quando guerra, energia, regulação, biocombustíveis, minerais e inteligência artificial são tratados separadamente, parecem agendas distintas

Jaques Paes | 27/04/2026, 08:32 h | Atualizado em 27/04/2026, 08:32
Entre Prateleiras

Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV

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Em algum momento, paramos de responder ao que existe e passamos a responder ao que parece existir. É o consenso produzindo efeitos no comportamento coletivo, que raramente se orienta pela realidade, mas por uma leitura compartilhada.

Daí surgem decisões em resposta a algo que nunca foi decidido, mas percebido.

O futuro nunca foi imaterial, mas passou a ser tratado como se fosse.

Quando guerra, energia, regulação, biocombustíveis, minerais e inteligência artificial são tratados separadamente, parecem agendas distintas. Na prática, já operam como variáveis de uma mesma equação estratégica.

A guerra recolocou a energia no centro sem pedir licença. Não apenas pelo impacto imediato sobre preços, oferta e segurança de abastecimento, mas porque expôs algo que nunca deixou de ser verdade: nenhuma economia relevante se sustenta por si.

Toda promessa de crescimento, transição, digitalização ou competitividade depende de uma camada anterior que, por não ser elegante, raramente é tratada como relevante: energia disponível, infraestrutura funcional, território e capacidade de transformar recurso em valor.

Quando a energia volta ao centro, surge a necessidade de ajustar regras, flexibilizar metas e recalibrar exigências. A convicção cede espaço à urgência, e o discurso muda na velocidade em que o sistema começa a pressionar. Onde antes havia expansão contínua de obrigações, emerge uma lógica que foi ofuscada por discursos normativos: falta de viabilidade, ausência de infraestrutura e lacunas na cadeia de suprimentos global.

O que parecia abstrato deixa de parecer. A materialidade.

Ela assume o protagonismo que lhe foi relegado e volta a definir possibilidades e limites, separando o que é viável do que ainda opera como argumento de desejo.

Fica evidente que não basta anunciar transição energética se a cadeia mineral segue concentrada. Não basta defender soberania produtiva se insumos básicos permanecem dependentes de fornecedores externos.

O Brasil conhece bem essa contradição. Nos biocombustíveis, há capacidade instalada, trajetória e vantagem tecnológica acumuladas por décadas.

O país que alimenta o mundo trata o agronegócio, por conveniência, ora como vilão, ora como solução, enquanto depende de fertilizantes dos quais importa cerca de 85%.

Produtividade, custo e segurança alimentar seguem vinculados a cadeias externas que não controlamos.

A transição energética costuma ser narrada como substituição tecnológica, mas sua sustentação depende de mineração, processamento e refino. A disputa não está apenas na extração, mas na capacidade de transformar essa base em valor.

A inteligência artificial talvez seja a expressão mais recente dessa mesma ilusão. Vendida como promessa algorítmica, já opera como um sistema intensivo em base física. Data centers consomem energia em escala crescente, e projeções indicam que esse consumo pode mais que dobrar até 2030. O futuro digital não flutua acima do mundo. Ele pesa sobre ele.

Esse é o ponto que a narrativa da imaterialidade tentou suavizar. Como se inteligência bastasse sem lastro. Como se o digital fosse capaz de revogar a geografia. Não revogou. Apenas deslocou o lugar onde a dependência aparece.

Durante anos, consolidou-se a ideia de um futuro leve, digital e escalável. Pode até parecer. Mas não sem energia, território, infraestrutura e materiais.

No fim, a materialidade nunca saiu do centro. Só deixou de ser tratada como tal.

Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas.

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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.