PMs que mataram Lucas Brendo e deixaram amigo paraplégico passam por julgamento
No Fórum de Jaboatão, mãe de Lucas Brendo cobra justiça e nega que houvesse armas no carro: "Quero o nome do meu filho limpo"
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Com colaboração de Carlos Simões
O corredor do Fórum de Jaboatão dos Guararapes tornou-se, nesta segunda-feira, o cenário de um embate entre versões e a dor de uma família. Quase um ano após a morte do profissional de marketing Lucas Brendo da Silva, de 29 anos, a Justiça deu início à primeira audiência de instrução e julgamento do caso. No banco dos réus, três policiais militares acusados pelo Ministério Público de homicídio.
O crime ocorreu em julho do ano passado. Lucas voltava de uma partida de futebol com amigos, comemorando o próprio noivado e uma promoção no emprego, quando um tiro atravessou o vidro traseiro do carro e atingiu sua nuca. A perseguição começou em Boa Viagem e terminou em Prazeres, com um veículo parado no meio-fio e um jovem morto.
O esforço de uma mãe que já foi servente de pedreiro
Para Ana Paula Aparecida da Silva, mãe de Lucas, a audiência é a chance de resgatar a honra do filho. Com a voz embargada, ela relembrou o sacrifício para criá-lo. "Eu trabalhei até como servente de pedreiro para ele ser alguém", desabafou. Ana Paula descreveu o filho como um jovem organizado, que cuidava de sua saúde e planejava pagar um plano de saúde para ela.
A mãe contesta duramente a versão policial de que os jovens estariam armados ou que teriam disparado contra a guarnição. "Não tinha arma de fogo nenhuma. Eles não vão sujar a imagem do meu filho, dizer que ele era bandido. Meu filho era um trabalhador", afirmou.
Versões em conflito e a "cena forjada"
Os policiais alegam que revidaram a uma agressão dos passageiros que estariam num Chevrolet Classic. Já os sobreviventes sustentam que os agentes plantaram armas no veículo após a batida. O motorista do carro, Samuel Norberto Bezerra da Silva, admitiu que não parou na blitz do Batalhão de Trânsito (BPTran) apenas porque o IPVA do automóvel estava atrasado.
Na época, Samuel falou com o Tribuna Online:
“Saímos da Barão (de Souza Leão) e pegamos a Avenida Rio Azul. Mais adiante, vimos a blitz, e seguimos porque não havia motos ali. Quando pegamos a 20 de Janeiro, em direção à Borborema, e depois o pontilhão que dá na Mascarenhas de Moraes, foi quando eles nos alcançaram e começaram a atirar. Tentei parar o carro no meio-fio, subi na calçada, mas ele travou na grama. Ali começaram vários disparos. Quando olhei para trás, Lucas Brendo já estava apagado, baleado, e Lucas Ricardo em desespero. Parei o carro, desci com as mãos para o alto, me rendi. Mesmo assim, me bateram, me enforcaram mandando eu dizer que tinha arma. Eu dizia que não tinha. Mesmo algemado, fui jogado no chão Samuel Norberto, Motorista do carro no dia da morte de Lucas
Para a família, a reação policial foi desproporcional. "Ele não podia fazer isso. Por que não atirou no pneu? Não tinha nenhum malandro dentro, eram pessoas de bem", questionou a mãe. Além da morte de Lucas, a ação deixou outro jovem, Ricardo da Silva paraplégico após levar um tiro na coluna.
Testemunhas e interrogatórios
Ao todo, 18 testemunhas de acusação foram arroladas para o dia de hoje. Os policiais, que respondem ao processo em liberdade, também devem ser interrogados. O pai de Lucas e outros parentes acompanham a sessão, reforçando que a motivação não é financeira, mas moral.
O Tribuna Online PE e a TV Tribuna PE/Band acompanha o desdobramento do julgamento no Fórum de Jaboatão. Até o fechamento desta matéria, a defesa dos policiais não havia se pronunciado sobre o teor dos novos depoimentos.
A defesa dos PMs não se pronunciou até o fechamento desta edição.
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