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TRIBUNA LIVRE

Quando a retórica vira erro moral e desastre estratégico

Uso de termo ligado à escravidão em discurso político expõe erro simbólico, desgaste de imagem e debate sobre limites da linguagem pública

TON MARTINS | 10/04/2026, 13:23 h | Atualizado em 10/04/2026, 13:23
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          Imagem ilustrativa da imagem Quando a retórica vira erro moral e desastre estratégico
TON MARTINS é estrategista em comunicação política |  Foto: Divulgação

Na política, palavras nunca são apenas palavras. Elas carregam tempo, símbolo, memória coletiva e consequência real. Por isso, quando um deputado recorre ao termo “senzala” como recurso de efeito, não comete apenas um excesso verbal; comete um equívoco que revela muito sobre como certos atores políticos compreendem, ou melhor, decompreendem, a sociedade em que atuam.

Há uma pergunta que precede qualquer análise técnica sobre comunicação política: quem tem o direito de evocar determinadas dores? A resposta não é simples, mas tampouco é nebulosa. Existe uma diferença fundamental entre nomear uma tragédia histórica para iluminá-la e utilizá-la como ornamento retórico para ampliar o próprio impacto.

Usar “senzala” como aspa de efeito, vindo de um deputado branco e de família tradicional da política, não é coragem nem eloquência. É apropriação da dor alheia para ganhar manchete. É como alguém, sem qualquer vivência do horror, dizer que “saiu de uma câmara de gás” para causar impacto. Quem nunca sofreu a violência da escravidão e não vive suas consequências no presente não tem o direito de banalizar essa memória em benefício próprio.

A senzala não é uma imagem disponível para empréstimo. É a síntese de um sistema de desumanização que durou séculos, cujas cicatrizes ainda estruturam as desigualdades do Brasil contemporâneo. Banalizá-la em benefício de uma frase memorável é, no mínimo, uma forma de descuido com a história; no máximo, uma forma de violência simbólica.

Mas o problema não é apenas ético. É estratégico. E aqui reside um paradoxo que merece reflexão: por que políticos com acesso a assessorias sofisticadas insistem em escolhas comunicacionais que os enfraquecem?

A resposta talvez esteja em uma confusão recorrente entre visibilidade e legitimidade. Manchete não é autoridade. Repercussão não é liderança. Quando uma fala gera mais ruído do que argumento, mais rejeição do que identificação, ela cumpre o papel oposto ao que foi projetada. A curto prazo, provoca impacto; a médio prazo, corrói a credibilidade de quem a proferiu.

Há algo mais profundo a ser considerado: a linguagem política não é apenas um veículo de ideias, ela é, ela mesma, um ato político. Escolher determinadas palavras é posicionar-se no campo simbólico, é revelar com que grupos se sente vinculado, que memórias reconhece como dignas de cuidado. Quando essa escolha é feita de forma irresponsável, ela não apenas fracassa comunicacionalmente; ela expõe a ausência de uma visão genuína sobre o país.

O Brasil é um país que ainda não concluiu o luto de sua própria história. A escravidão não é passado arquivado: é presente estrutural. Falar sobre ela exige consciência, escuta e, sobretudo, humildade. O político que ignora isso não está sendo ousado. Está sendo imprudente; e imprudência, no espaço público, tem um preço que raramente se paga sozinho.

O erro, portanto, não começa no vocabulário. Começa na visão de mundo. E termina onde toda frase de efeito vazia termina: no esquecimento, precedido pela desconfiança.

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