Desisti. E não foi escolha
Reflexão sobre maternidade expõe como desigualdades estruturais moldam escolhas individuais e limitam a liberdade feminina
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Tomei uma decisão. Hoje. Agora. Desisti de ser mãe. Cansei da precarização da vida, das apologias, de tentar entender a irracionalidade dos racionais. De buscar compreensão em um contexto socialmente descontextualizado. Desisti.
Desisti de caber no que esperam de mim. Desisti do molde, dos papéis estreitos, das margens, de roteiros escritos para mim sem meu consentimento. Dane-se se o mundo depende de eu ser mãe para existir.
Quero fazer parte dessas políticas organizacionais “neutras” que geram efeitos desiguais. Desses critérios enviesados. Quero estar nas redes veladas de poder, onde não há chave, há convite. Onde ele opera de forma naturalizada e incorporada.
Quero estar no clube dos racionais, que podem ser irracionais sem medo, sem julgamento. Quero fazer parte. Quer saber o porquê da minha dor? É a necessidade de esquecer o que fiz, o que faço e o que preciso fazer para sobreviver.
Não é a escolha, é o contexto que a torna necessária. Quando uma decisão íntima precisa ser justificada estruturalmente, ela já não é mais individual.
E esse não é um problema apenas de gênero. É um problema de estrutura.
É estranho ver uma sociedade estruturada em torno da vida negar a própria natureza humana.
O comportamento humano não se sustenta fora do contexto. A dissonância não é exceção, é ajuste. O que parece escolha é, muitas vezes, ajuste. Ajuste ao ambiente. À linguagem. À expectativa.
Não existe, por si, uma desigualdade social isolada. Não há um “sistema desigual”. O que existe é um sistema de decisão que opera por cultura, cognição e instituições. Ele está embutido na forma como pensamos, decidimos e organizamos sistemas.
A desigualdade persiste porque não depende mais de coerção explícita. Não precisa de imposição. Ela se reproduz na linguagem, na mídia, nas estruturas e, principalmente, nas escolhas que parecem livres.
O sistema já não precisa dizer o que deve ser feito. Basta moldar como pensamos. E quando o pensamento é moldado, a decisão já vem pronta.
Isso cria uma lacuna social que alimenta movimentos que polarizam, simplificam e reduzem o espaço de discussão.
O ambiente estreita o pensamento, descarta a complexidade e amplia desigualdades por meio de um bloqueio cognitivo que ele próprio produz.
A informação existe. Mas a saturação bloqueia. Pior que o silêncio é a fala alta de quem não sustenta o que diz sobre uma pauta justa.
A desigualdade é cognitiva, institucional e culturalmente reforçada. Não apenas um problema social, mas de arquitetura de decisão. Não se explica por critérios jurídicos ou econômicos isolados, e sim por algo que se sustenta justamente por não parecer estruturado.
No contexto das sociedades e organizações, líderes atuam como agentes de sugestão e de símbolos, mobilizando, por apelos emocionais, um contágio mental que propaga crenças e constitui uma “alma coletiva” marcada pelo anonimato.
A diluição da responsabilidade individual amplifica comportamentos extremos e reproduz, de forma simbólica, estruturas de dominação, sejam elas masculinas ou não. Isso é uma violência que não é percebida como tal, porque já está naturalizada.
Se a desigualdade persiste sem coerção explícita, então o problema não é falta de liberdade. É como as decisões são formadas dentro dela.
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.