A liderança entre a erosão e a reconstrução
A qualidade da liderança determina o que é possível
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Quando precisamos qualificar “liderança” como “humanizada”, algo já está conceitualmente deslocado. Ou empobrecemos o conceito ao reduzi-lo à gestão de métricas, ou passamos a tratar humanidade como atributo opcional.
A discussão revela um deslocamento mais profundo: reduzimos liderança ao controle, esquecendo que métricas organizam informação, mas apenas liderança organiza decisão.
Em 2018 e 2019, dois acidentes com o 737 MAX expuseram fragilidades internas da Boeing que iam além da engenharia. Investigações apontaram pressões por prazo, comunicação fragmentada entre áreas técnicas e gestão executiva e um ambiente em que alertas não encontravam escuta adequada no topo.
Veio à tona algo estrutural: informações críticas não circulavam com integridade. Em contextos assim, a assimetria de poder molda o próprio conteúdo das decisões. Problemas são suavizados, riscos reinterpretados e divergências convertidas em desalinhamento.
Toda organização convive com hierarquia, a diferença está em como ela administra o fluxo informacional que a atravessa. Quando questionar implica custo pessoal ou reputacional, instala-se um filtro silencioso. Liderança, nesse ponto, é a arquitetura do processo pelo qual o erro pode ser antecipado.
A liderança também pode operar em sentido inverso. Quando Satya Nadella assumiu a Microsoft em 2014, o desafio era cultural: competição interna intensa, baixa colaboração e foco excessivo em silos. A inflexão não foi tecnológica, foi cognitiva. Reorientar a organização para aprendizado contínuo alterou o modo como decisões eram discutidas.
O reposicionamento estratégico que se seguiu decorreu de um ambiente em que a circulação de informação deixou de ser defensiva e passou a ser produtiva. Tecnologia foi vetor. Cultura foi condição.
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Os dois casos revelam a mesma variável. Liderança não é traço de personalidade nem retórica motivacional. É a qualidade do ambiente decisório. Segurança psicológica não é indulgência, mas mecanismo de governança que reduz assimetrias internas e amplia a qualidade da decisão. Decisões melhores não surgem apenas de dados melhores, mas de ambientes onde dados podem ser confrontados.
O mercado observa resultados. A liderança define as condições sob as quais esses resultados são produzidos. Entre erosão silenciosa e reconstrução consistente, o fator determinante não é o setor, mas o modo como o poder organiza a informação.
A forma como a liderança administra esse poder molda também a empregabilidade dentro da própria empresa. Ambientes que punem o erro formam profissionais defensivos. Ambientes que acolhem o questionamento formam profissionais capazes de assumir responsabilidade e lidar com complexidade. Nesse sentido, empregabilidade deixa de ser atributo individual isolado e passa a ser produto sistêmico.
Liderar, nesse contexto, é assumir responsabilidade pela qualidade do processo decisório antes que ele produza efeitos irreversíveis. Organizações não colapsam apenas por falhas técnicas; colapsam quando deixam de ouvir o que já sabiam.
Se precisamos adjetivar liderança como humanizada, é porque esquecemos que decisão sem consideração humana nunca foi liderança, foi apenas comando.
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Jaques Paes é Executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio Vargas
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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.