Atentado contra secretária do Cabo expõe contraste de cidade que zerou feminicídios
Aline Melo coordena políticas públicas que, em fevereiro, trouxeram um marco inédito: a cidade completou 365 dias sem mortes por questões de gênero
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Em meio ao atentado contra secretária da Mulher do Cabo de Santo Agostinho, Aline Melo, um contraste emerge. O município da Região Metropolitana do Recife completou, há pouco mais de um mês, o marco de 365 dias sem registrar feminicídio.
A secretária da Mulher não foi vítima deste tipo de crime. Mas, antes de ser alvo de violência e ter o carro cravado de tiros na PE-28, Aline Melo - que coordena as políticas públicas para mulheres na cidade - já era um pilar na defesa do combate ao feminicídio na cidade com políticas públicas arrojadas.
"Em um momento em que o Brasil ainda lida com índices elevados de violência contra a mulher, o resultado alcançado pelo Cabo merece destaque como exemplo de políticas públicas que salvam vidas", apontou a secretária, que agora se vê no centro da violência que combate. Não relacionada ao feminicídio, mas a de gênero.
Aline Melo, contudo, não reduziu o tom após o atentado, cujos autores e motivação ainda estão sendo investigados.
“A gente precisa tomar cuidado, redobrar a atenção, mas a gente não pode ser deixar intimidar (...) Foi um caso ligado à violência de gênero, ligado a tentativa de parar uma mulher que ocupa o espaço de poder. E, apesar de eu obviamente estar muito assustada com isso, eu não vou parar. Acho que a mensagem hoje é dizer que a luta continua”. Aline Melo, Secretária da Mulher do Cabo de Santo Agostinho
A estratégia que não se apaga em meio ao crime
A ausência de mortes de mulheres por feminicídio Cabo durante um ano virou assunto nas Varas de Violência contra a Mulher do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), sendo elogiada pelo fortalecimento da rede de acolhimento.
Além dessa rede, a prefeitura estruturou a Patrulha da Mulher e criou um abrigo provisório emergencial próprio para receber vítimas e seus filhos antes do encaminhamento aos serviços estaduais. Também oferece segurança e suporte social e jurídico às vítimas de violência doméstica antes mesmo do encaminhamento aos serviços estaduais.
Veja também: Carro de Secretária da Mulher do Cabo de Santo Agostinho é alvo de tiros na PE-28
Segundo informações da Secretaria da Mulher do Cabo, a integração entre tecnologia e operações de campo, com implantação de videomonitoramento com inteligência artificial e protocolos de pronta resposta, também surtiram efeito.
Essas ações se aliaram à criação de unidades especializadas e atuação preventiva da Guarda Civil Municipal, com mais de 500 ordens de serviço, 100 operações conjuntas e 1.600 abordagens. Foi um reforço em áreas críticas e investimentos em ações preventivas específicas.
Para marcar o índice, em gesto considerado ousado, a gestão municipal chegou a instalar um relógio lilás no Pátio da Estação, no dia 20 de fevereiro, para registrar o tempo sem mortes femininas por gênero.
O cenário de guerra
A "blindagem" contra o feminicídio no Cabo não representa a ausência de machismo estrutural. A queda neste tipo de crime ocorre, por exemplo, em um território que ainda registrou 142 mortes violentas no ano passado (16 a menos do que 2025). Entre janeiro e fevereiro deste ano, foram 24 assassinatos, mantendo a média de 12 mortes por mês do ano anterior.
O indicador de feminicídio zero, no entanto, isola o Cabo da estatística nacional e estadual. Em 2025, o Brasil atingiu o maior número de feminicídios desde que a tipificação do crime, em 2015. Foram 1.470 mulheres mortas pelo fato de serem mulheres. No ano anterior, esse número foi de 1.450.
Em 2025, Pernambuco teve 88 feminicídios, segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS), um aumento de 15% em relação ao ano anterior.
O embate político
Os dados sobre feminicídio do final de feveiro e março no Cabo ainda não foram divulgados. Mas o prefeito Lula Cabral (Solidariedade), um crítico da gestão de Raquel Lyra (PSD) no tocante à segurança pública e à falta de apoio ao município nesta área, mantém-se confiante na estratégia adotada na cidade.
"Significa mulheres vivas, famílias preservadas e uma sociedade que escolhe enfrentar uma das formas mais extremas de violência baseada em gênero”.
Ele também se posicionou, nesta sexta-feira (27), sobre o atentado à secretária, que classificou como "grave e inaceitável". Segundo o gestor, o atentado contra o veículo em que estavam a secretária e seu motorista não pode ser tratado com normalidade.
"Determinei que a Prefeitura atue junto às forças de segurança para garantir a apuração rigorosa do caso. Nenhum ato de intimidação vai nos fazer recuar ou calar quem trabalha todos os dias pelos direitos das mulheres", afirmou Cabral.
O posicionamento da SDS
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) informou que as polícias Civil e Militar, além da Polícia Científica, já estão mobilizadas na investigação do atentado contra a secretária da Mulher do Cabo de Santo Agostinho. Em nota, o órgão detalha que o veículo passa por perícia e que diligências seguem em curso para localizar os envolvidos.
Confira a nota da SDS na íntegra:
"A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) está apurando a ocorrência que vitimou a secretária da Mulher do município do Cabo de Santo Agostinho, na noite da quinta-feira (26), no município.
De acordo com informações do 18º BPM, da Polícia Militar de Pernambuco, a corporação foi acionada após a vítima já se encontrar na delegacia da cidade. De imediato, equipes de motopatrulhamento e guarnições táticas intensificaram as rondas na área, com o objetivo de localizar possíveis envolvidos.
Na manhã desta sexta-feira (27), a vítima compareceu à 14° Delegacia de Homicídios do Cabo para prestar depoimento e formalizar a ocorrência.
A Polícia Científica, por meio do Instituto de Criminalística, já iniciou a realização das perícias no veículo.
A SDS reforça o empenho nas diligências que seguem sendo realizada para elucidação do caso."
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