Dívidas no cartão disparam e governo quer reduzir os juros
O presidente Lula pediu à sua equipe medidas para conter o endividamento da população, e criticou o hábito de fazer compras por impulso
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Pressionado pelo impacto negativo da alta do endividamento das famílias em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer mudanças para reduzir o custo do rotativo do cartão de crédito.
O tema foi discutido pelo Presidente com a cúpula do Executivo na semana passada, que avaliou as principais fontes de desgaste no cenário eleitoral. Nova reunião aconteceu nesta semana com integrantes da equipe econômica.
Lula confirmou na quinta-feira (26) que mandou o Ministério da Fazenda elaborar propostas para reduzir o endividamento da população. Ele também afirmou que as pessoas fazem compras impulsivas que se acumulam e, depois, colocam no governo a culpa por estarem endividadas.
“Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada, mas, quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. 'Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada'. Aí quem vocês xingam? O governo”, declarou o Presidente da República.
Pelas regras em vigor do cartão de crédito, o valor total cobrado no rotativo e no parcelamento da fatura do cartão não pode ultrapassar 100% da dívida principal.
Uma dívida de R$ 100 não quitada, por exemplo, está limitada a R$ 200 após incidência dos juros e dos encargos por atraso. A mudança, no entanto, não resolveu o problema, na avaliação dos auxiliares de Lula.
No Espírito Santo, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic-ES), publicada em fevereiro, mostra que a taxa de endividamento das famílias no Estado está em 89,3%.
“O governo pode aliviar o problema no curto prazo com instrumentos como renegociação, portabilidade e migração de dívidas caras para linhas menos onerosas. Mas isso é remédio, não cura. O pano de fundo é que o brasileiro continua operando com renda ainda baixa para o padrão de vida que busca sustentar, num país em que o crédito segue muito caro”, afirma o economista Eduardo Araújo.
Para ele, a discussão mais importante é de longo prazo, e o País só vai reduzir de forma estrutural a dependência de crédito caro quando conseguir dar um salto de produtividade e renda.
“Isso passa por revolução educacional, melhor qualificação ao trabalho, infraestrutura mais robusta e condições urbanas que permitam às pessoas produzir mais e melhor. O debate deveria incluir como gerar riqueza de forma sustentada”.
Especialistas concordam que Pix e cartão criam ciladas
A popularização dos meios de pagamentos que substituíram o dinheiro físico, como cartão de crédito e Pix, têm como efeito colateral a criação de “armadilhas” à população, avaliam especialistas.
Segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic-ES), o cartão de crédito é a principal forma de endividamento no Espírito Santo.
A taxa de juros do rotativo do cartão de crédito no Brasil está entre as mais altas do mundo. Por isso, seu uso deve ser evitado ao máximo, restrito a situações de emergência e sempre acompanhado de um plano para quitação.
Essa é a avaliação de Pablo Lira, diretor-geral do Instituto Jones dos Santos Neves, que destaca o atual cenário macroeconômico brasileiro. “Embora a pressão inflacionária tenha diminuído recentemente, o IPCA ainda está acima de 5%, o que mantém a taxa básica de juros em 14,75%. As taxas do rotativo são ainda maiores”.
Ele alerta para a necessidade de evitar o uso do rotativo e de linhas de crédito atreladas ao IPCA, por conta dos juros exorbitantes.
Saiba Mais
Cartão de crédito lidera
O estoque de financiamentos com cartão de crédito cresceu 16,1% nos últimos 12 meses, ritmo similar ao do crédito pessoal não consignado. Só no rotativo, a linha mais cara, que é usada quando não se paga o valor total da fatura, subiu 31% no período.
Esse movimento ocorreu no mesmo período em que operações bem mais baratas, como a linha de crédito com desconto em folha para aposentados do INSS, ficaram estagnadas ou perderam muito do interesse, como a antecipação do saque-aniversário.
No ES, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC-ES), publicada em fevereiro deste ano, mostra que a taxa de endividamento das famílias no Espírito Santo está em 89,3%.
Consignado não foi solução
Os dados do Banco Central são a base do diagnóstico do governo para tentar encontrar caminhos para induzir uma migração no sentido inverso. Ou seja, estimular os consumidores a buscarem opções mais em conta.
O consignado privado é uma delas e tem crescido bastante depois das medidas do governo. Para esse produto, o governo planeja atuar no sentido de conter casos de taxas de juros abusivas, mas a ideia de um teto (mesmo ancorado em taxas de mercado) perdeu força, e agora a lógica é similar à da implementada no setor de combustíveis: pressionar diretamente os casos de preços anormais com sanções — a definição de preço anormal deve ser baseada na média do mercado.
A visão do Palácio do Planalto é que a política não deu certo. A leitura é que a medida, na prática, não mudou o nível de juros; apenas evitou que a bola de neve de dívidas ficasse imparável.
Crescimento
O endividamento das famílias cresceu no último ano, chegando a praticamente 50% em dezembro do ano passado — era 48,4% em dezembro de 2024. O comprometimento da renda com pagamento de dívidas bancárias saltou de 27,5% para 29,2% no intervalo de um ano.
E esse processo de migração para linhas mais caras é parte desse movimento, que leva a uma sensação de crescente falta de dinheiro.
Impacto mitigado
Um estudo do banco Santander, mostrando que o ganho de renda real do trabalho cai à metade quando se leva em conta o gasto com dívida, tem circulado entre os técnicos do governo dentro desse trabalho de entender o que está acontecendo.
A tradução é que esse contexto, junto com outros movimentos, como o fim do processo de queda nos alimentos e do bônus de queda da inflação, acabou por ajudar a mitigar o impacto na avaliação do governo de medidas como a isenção do Imposto de Renda para famílias que ganham até R$ 5 mil.
Avaliação de especialista
Para o presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-ES), Ricardo Paixão, o governo federal deve ter mecanismos para as pessoas poderem desafogar o orçamento, sendo a isenção do Imposto de Renda um passo importante.
“É preciso melhorar a estrutura pública, como transporte público e serviços de saúde, já que, com serviços públicos de qualidade, diminui a necessidade da população com gastos nesses setores.
Diagnóstico
Ainda que o governo siga tendo defensores de teto de juros para produtos como o consignado, parte do diagnóstico já feito e apresentado ao presidente Lula é que isso não tem eficácia, como ficou evidente na estagnação das linhas para aposentados após o processo de maior limitação imposto pelo Ministério da Previdência.
Há também percepção de que o problema das fraudes com desconto associativos investigados na CPMI do INSS afetaram. Com isso, as pessoas buscaram produtos mais caros.
Um integrante do governo destaca que a lógica do esforço para redução do comprometimento da renda não é fomentar o consumo, mas sim tentar mais rapidamente reduzir essa sensação de sufocamento gerada pelo acúmulo de dívidas. Ainda assim, o efeito prático tende a ser esse, dado que o nível de renda média do País não permite se imaginar que eventual alívio seria direcionado para um aumento da poupança do brasileiro.
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