O mágico efeito placebo
Crônicas e dicas do doutor João Evangelista, que compartilha sua grande experiência na área médica
Dr. João Evangelista
João Evangelista Teixeira Lima é médico formado pela Emescam, com pós-graduação pela PUC-RJ. Especialista em Gastroenterologia e Clínica Geral, é colunista de A Tribuna e do Tribuna Online, onde também apresenta o quadro “Doutor João Responde” na TV Tribuna, abordando saúde e prevenção com linguagem simples.
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Durante minha infância, tomei poucos remédios e muitos placebos. Com exceção dos vermífugos e vacinas, cientificamente provados, minhas doenças eram tratadas com variados tipos de chás, com plantas colhidas no quintal.
Capim-cidreira, flor de maracujá, hortelã, erva-doce, espinheira-santa, boldo, entre tantos outros vegetais, eram considerados placebos. Na verdade, eles faziam efeito, embora pouco se soubesse sobre suas propriedades medicinais.
Naquela época, o maior representante dos placebos era a água com açúcar. Hoje, sabe-se que a glicose alimenta o cérebro, cuja função de comando do corpo dispensa explicações.
Ainda hoje, existem drogas sem comprovação científica, mas que apresentam eficácia.
Diante do uso de um placebo eficaz, podem estar ocorrendo situações em que existe no remédio algum ingrediente fisiologicamente ativo, que leva à cura; a doença é autolimitada, seguindo seu ciclo natural, com ou sem intervenção médica; a crença no remédio ou médico, mobilizando algum mecanismo poderoso de autocura dentro do corpo.
Entretanto, convém lembrar que nem todo efeito placebo é positivo e terapêutico. Existe um efeito negativo conhecido como “nocebo”. Quando um paciente associa sentimentos e emoções negativos a um tratamento, uma amplitude de sintomas desagradáveis pode surgir.
Placebos costumam agir em dores emocionais e orgânicas, revelando que há dentro de nós certos mecanismos de autocura. Muitas vezes, na dificuldade de lidar com o não mensurável e o não tangível, atribuímos aos placebos o poder que pertence à mente.
Estudos sugerem que o efeito placebo pode resultar em melhorias significativas, com algumas pesquisas indicando que até 40% das pessoas podem apresentar melhora de sintomas, ao tomarem substâncias inertes.
A eficácia do placebo é maior quando o tratamento é administrado em um contexto de cuidado, competência e quando se cria uma expectativa positiva.
O efeito placebo é um fenômeno neurocientífico, onde a crença no tratamento gera melhora física real, liberando substâncias, como endorfinas. A mente influencia o corpo através da autossugestão, provando que expectativas positivas podem reduzir sintomas, mesmo sem um princípio ativo. Estudos mostram que o placebo funciona, até quando se sabe que é falso.
Não se trata de magia, mas um mecanismo biológico de cura, onde o cérebro interpreta o contexto e libera substâncias terapêuticas.
A eficácia do placebo também pode ser influenciada pela genética e pelas expectativas culturais, mostrando a complexa interação entre a mente, o corpo e o ambiente.
Considerada uma das áreas mais fascinantes e, por vezes, subexploradas da medicina, o efeito placebo continua demonstrando a capacidade de resposta do organismo, através do pensamento e das expectativas.
A fé movimenta o sentimento, a mente e o corpo, fazendo com que a cura venha de dentro para fora. Assim aconteceu com o cego que ouviu e viu Jesus falar: “Vai, a tua fé te salvou”.
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PÁGINA DO AUTORDoutor João Responde
A coluna “Doutor João Responde” é publicada todas as terças-feiras no Jornal A Tribuna e no Tribuna Online. O espaço trata de saúde e prevenção em linguagem acessível, onde esclarece dúvidas do público e comenta temas de saúde que estão em destaque no Espírito Santo.