Novos remédios, técnicas e cirurgias para enfrentar doenças do sono
Entre as novidades estão o lemborexant, que reduz estado de hiperalerta, e o uso do Mounjaro em pacientes que sofrem de apneia associada à obesidade
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Deitar e dormir. O que era para ser um processo normal do corpo tem se tornado, a cada dia, um desafio. Pelo menos é o que apontam estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em que 72% dos brasileiros – cerca de 153 milhões – sofrem de doenças relacionadas ao sono.
Para tentar melhorar o sono da população, a medicina tem se desdobrado em descobrir novos medicamentos, técnicas e cirurgias.
Na última semana, em que foi comemorada a Semana do Sono, profissionais de saúde do Espírito Santo participaram de uma atualização organizada pela Diretoria da Academia Brasileira do Sono do Espírito Santo. Dentre as novidades apresentadas, uma nova medicação contra insônia: o lemborexant (Dayvigo).
A medicação foi liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas ainda não está disponível para ser vendida. Segundo a otorrinolaringologista e especialista em Medicina do Sono Zuleika Barbosa, a principal diferença do novo remédio em relação aos hipnóticos tradicionais está no mecanismo de ação.
“Enquanto medicações convencionais atuam predominantemente por meio do aumento da atividade inibitória no sistema nervoso central — promovendo sedação —, o lemborexant atua reduzindo diretamente o estado de hiperalerta ao bloquear o sistema de orexina, responsável pela manutenção da vigília”.
Para o tratamento da apneia do sono, ano passado foi aprovado o uso da tirzepatida (Mounjaro) para pacientes que sofrem de apneia associada à obesidade.
“O estudo mostrou que a melhora da apneia foi diretamente proporcional à perda de peso que esses pacientes apresentaram”, destacou a pneumologista e médica do sono Roberta Couto, que ressaltou ainda que o grupo que usou Mounjaro teve uma redução de 25 eventos de apneia por hora de sono.
Em casos graves da apneia, também pode ser indicada a cirurgia ortognática que, de acordo com Rowdley Rossi, mestre e Especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial, doutor em Medicina do Sono e presidente da Academia Brasileira do Sono - Sessão ES, promove um aumento significativo das vias aéreas e consequentemente uma “redução importante do índice de apneia (IAH) e dessaturação do oxigênio”.
Fique por dentro
Insônia
Caracterizada pela dificuldade de iniciar o sono, de mantê-lo durante a noite ou pelo despertar precoce, a insônia é um dos maiores problemas de sono da população e pode acarretar situações mais graves.
Tratamento
Aprovado pela Anvisa, o remédio lemborexant deve chegar às farmácias nos próximos meses. Ele pertence a uma classe chamada antagonistas dos receptores de orexina. A orexina, segundo explicou a médica do sono Zuleika Barbosa, é uma substância produzida no cérebro responsável por manter a pessoa acordada e alerta. O novo remédio age bloqueando temporariamente essa ação. Mas a médica ressalta que o tratamento principal da insônia continua sendo a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I), que trabalha hábitos, pensamentos e comportamentos relacionados ao sono.
Síndrome das pernas inquietas
Desconforto que o paciente sente nos membros inferiores, principalmente à noite, piorando em repouso. Por conta disso, a pessoa tende a movimentar as pernas durante a noite.
Tratamento
Se baseia na reposição de ferro, já que os pacientes têm deficiência de ferro – que não é presente no sistema circulatório, mas no sistema nervoso central – em uma região específica do cérebro, chamada substância negra, segundo explicou o neurologista e médico do sono Alexandre Marreco.
Há terapias em testes, como a estimulação elétrica do nervo peroneal (parte lateral do joelho) e estimulação da medula espinhal.
Bruxismo
O bruxismo do sono é um distúrbio complexo e multifatorial cuja origem não é completamente compreendida. Ele se caracteriza pelo ranger ou apertar dos dentes durante a noite, podendo estar associado a fatores emocionais como ansiedade e estresse.
Tratamento
Entre os tratamentos estão a terapia cognitivo-comportamental, remédios, as placas estabilizadoras para o sono e a toxina botulínica. Se o paciente tem bruxismo associado à apneia , será necessário tratar também a apneia do sono.
Apneia obstrutiva do sono
Marcada pela interrupção do fluxo da respiração por 10 ou mais segundos durante o sono, estas pausas podem ocorrer várias vezes durante a noite, provocando fragmentação do sono e quedas do oxigênio.
Tratamento
No ano passado foi aprovado o uso da a tirzepatida (Mounjaro) para pacientes com apneia associada à obesidade, conforme explicou a médica do sono Roberta Couto. No estudo, pacientes que usaram Mounjaro tiveram uma redução média de 25 eventos de apneia por hora de sono, com perda de peso de 20%. Cerca de 50% conseguiram reduzir o índice de apneia, a ponto de não precisar usar CPAP, equipamento que mantém a via aérea aberta durante o sono por meio de pressão positiva.
O doutor em Medicina do Sono Rowdley Rossi destaca ainda um tratamento inovador: a estimulação do nervo hipoglosso, tecnologia mais recente ainda não disponível no Brasil, que move a língua para frente mantendo as vias aéreas abertas durante o sono.
Narcolepsia
Distúrbio do sono crônico que causa sonolência excessiva diurna e afeta intensamente as atividades diárias. A pessoa pode adormecer involuntariamente, mesmo dirigindo, comendo ou conversando.
Tratamento
Um novo remédio para narcolepsia, o oveporexton, está em fase final de estudos. Desenvolvido pela Takeda, ele atua na causa da doença ao restaurar a sinalização da orexina no cérebro, atuando no controle dos sintomas. A empresa deve iniciar o processo de aprovação regulatória ainda neste ano, incluindo o Brasil.
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