Como famílias podem ajudar os filhos a escolher profissão
Especialistas indicam que pais não devem fazer a escolha, mas orientar o jovem a conhecer seus interesses e habilidades
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Durante muito tempo, escolher uma profissão parecia um caminho quase natural: muitos jovens seguiam o ofício da família, repetindo trajetórias de pais e avós. Hoje, porém, o cenário é bem diferente.
Com tantas opções no mercado, decidir por uma carreira, ainda mais na adolescência, não é uma tarefa fácil. E é nesse momento que o apoio das famílias pode ajudar esses jovens na escolha, segundo especialistas.
Mas, na prática, o que os pais podem fazer? Segundo Gisélia Freitas, psicóloga especialista em Pessoas e Carreiras, o papel dos pais não é escolher a profissão, mas ajudar o jovem a se conhecer melhor.
“Isso envolve conversar sobre interesses, habilidades, valores e também apresentar possibilidades de carreira que muitas vezes o adolescente ainda não conhece”.
Ela destaca ainda que os pais têm mais experiência de vida e de mercado, então podem ampliar o olhar do filho, mostrando caminhos, mas sem impor decisões.
“Quando a escolha vira uma pressão familiar, o risco é o jovem seguir uma carreira que não tem relação com sua identidade. O resultado costuma aparecer depois: desmotivação, trocas de curso ou até frustração profissional”.
E essa desmotivação pode levar até mesmo ao abandono da graduação, algo que não é incomum, segundo aponta um levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação, de 2019.
O relatório mostrou que 59% dos alunos desistem de seus cursos ao entrarem na faculdade.
Para a psicóloga Thaís Facco, muitos adolescentes ainda não tiveram oportunidade de explorar diferentes atividades, então é natural que se sintam confusos.
Thaís ressalta que algumas perguntas podem ajudar: em quais atividades ele sente mais interesse ou curiosidade?; o que ele gosta de aprender ou pesquisar por conta própria?; em que tipo de tarefa ele costuma se sair bem ou receber elogios?
“Outra coisa é observar como ele gosta de fazer as coisas, não só o que ele faz. Há jovens que gostam de resolver problemas, outros gostam de ajudar pessoas, outros preferem criar, organizar ou analisar”.
Em casos de muitas dúvidas, a psicóloga infantil Luiza Colonna orienta buscar ajuda profissional de psicólogos que façam testes vocacionais e até acompanhamento psicológico para melhorar o autoconhecimento.
Inclinação para tecnologia
O servidor público Antonio Magliano, de 39 anos, e a empresária Taisa Magliano, de 43, são pais de Felipe Magliano, 16, que neste ano está na terceira série do ensino médio e escolherá por um curso de graduação.
Antonio contou que, durante uma reunião de escola, onde Felipe estuda, um dos temas tratados foi a dificuldade que os adolescentes têm em escolher a profissão.
“Fomos aconselhados a ver as matérias que ele tem mais aptidão e, se for o caso, buscar ajuda por meio de um teste vocacional. Em casa, tentamos orientar, na medida do possível, vendo as preferências dele”.
Antonio conta que, na juventude, também enfrentou dúvidas semelhantes, tendo cursado um ano de Jornalismo e depois mudado para Direito. Já para Felipe, segundo Antonio, entre as opções de cursos estão as engenharias e áreas de tecnologia. “Por ele gostar bastante de computador, achamos que ele vai inclinar mais para Ciências da Computação, Sistema da Informação ou Engenharia da Computação. Não impomos, conversamos com ele, mas a decisão é dele”.
O que os pais devem fazer
Apoiar, orientar e caminhar junto
Os especialistas destacam que o papel dos pais é acompanhar o processo, oferecendo suporte emocional e orientação, mas sem tomar a decisão pelo filho.
Estimular o autoconhecimento
Conversar sobre interesses, habilidades, valores e aquilo que o jovem gosta de aprender ajuda a construir escolhas mais conscientes.
Criar um ambiente de diálogo e escuta
Abrir espaço para conversas, fazer perguntas e ouvir o que o adolescente pensa e sente fortalece a confiança e facilita o processo de escolha.
Ampliar o repertório de profissões
Apresentar diferentes carreiras, explicar rotinas de trabalho e falar sobre caminhos possíveis ajuda o jovem a conhecer o mundo profissional.
Incentivar experiências práticas
Cursos curtos, atividades extracurriculares, estágios, voluntariado, visitas a empresas, feiras de profissões e conversas com profissionais podem ajudar o jovem a entender melhor as áreas de interesse.
Mostrar que a escolha não precisa ser definitiva
Os especialistas lembram que carreiras hoje são mais flexíveis e muitas pessoas mudam de área ao longo da vida.
Equilibrar interesses pessoais e realidade do mercado
A escolha ideal envolve a combinação entre aquilo que o jovem gosta, aquilo que ele faz bem e áreas que tenham oportunidades no mercado.
Incentivar habilidades importantes para o futuro
Competências como pensamento crítico, criatividade, comunicação, resolução de problemas e capacidade de aprender continuamente são cada vez mais valorizadas, e os pais devem incentivá-las.
Usar ferramentas de orientação com responsabilidade
Testes vocacionais podem ajudar na reflexão, mas devem ser aplicados por profissionais e usados como parte de um processo maior de orientação.
O que os pais NÃO devem fazer
Escolher a profissão pelo filho
Impor uma carreira pode levar o jovem a seguir um caminho que não tem relação com sua identidade.
Transformar a escolha em pressão familiar
A pressão pode gerar ansiedade, desmotivação e até abandono de cursos no futuro.
Projetar sonhos ou frustrações pessoais nos filhos
Expectativas dos pais podem interferir no processo de autoconhecimento do jovem.
Tratar a decisão como algo definitivo para toda a vida
Hoje as trajetórias profissionais são dinâmicas e podem mudar ao longo do tempo.
Limitar o sucesso a poucas profissões tradicionais
O mercado de trabalho se transformou e novas áreas surgem constantemente.
Basear a escolha apenas em salário ou status
Escolher uma carreira apenas por retorno financeiro pode levar à frustração profissional.
Ignorar o conhecimento do jovem
Desconsiderar interesses, talentos e perfil do adolescente pode resultar em escolhas pouco sustentáveis.
Acreditar que testes dão respostas prontas
Os testes vocacionais ajudam na reflexão, mas não definem sozinhos a profissão ideal.
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