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OLHARES COTIDIANOS

Tomada de perspectiva

Uma tempestade, um ponto de ônibus e a lição de que toda reclamação tem história

Sátina Pimenta | 12/03/2026, 12:23 h | Atualizado em 12/03/2026, 12:23
Olhares Cotidianos, por Sátina Pimenta

Sátina Pimenta

Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.

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          Imagem ilustrativa da imagem Tomada de perspectiva
Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária. |  Foto: Divulgação

Faço parte de um grupo de WhatsApp do bairro. Como em praticamente todo grupo de bairro, ali é proibido, mas todo mundo fala de: religião, política, futebol. Além de reclamação da prefeitura, foto de cachorro perdido e, claro, gente pedindo alguma coisa para melhorar a vida.

Às vezes, confesso, eu olho algumas mensagens e penso: “lá vem mais uma”. Tem poda de árvore, buraco na rua, lâmpada queimada.

Um dos pedidos recentes era podar uma árvore e colocar uma estrutura mínima para quem espera o ônibus numa avenida importante do bairro. A justificativa era simples: as pessoas ficam no sol esperando transporte.

E eu, muito sinceramente, não pego ônibus há muito tempo. Então, naquele primeiro momento, a minha reação mental foi quase automática e egoísta, mas silenciosa: mais uma reclamação, aff!

Porém, ontem, eu saí de uma homenagem na Câmara de Vereadores de Vitória pelo mês das mulheres. Uma cerimônia bonita, pomposa, com mulheres muito bem arrumadas, maquiadas, elegantes, sendo reconhecidas por suas trajetórias, seus currículos, suas conquistas.

Já à noite, começou a chover. Mas não era aquela chuvinha civilizada, não. Era daquelas que parece que o céu resolveu lavar a cidade.

Meu primeiro pensamento foi profundamente doméstico: “Meu Deus, eu lavei roupa hoje. E deixei o edredom do lado de fora”.

Sim. No meio de uma tempestade, voltando de uma cerimônia elegante, a minha grande preocupação era o edredom.

Só que, alguns minutos depois, passando pela Norte-Sul, eu vi uma cena que me fez lembrar imediatamente daquele pedido no grupo do bairro.

Uma mulher estava parada sozinha na rua. Não tinha cobertura. Não tinha ponto de ônibus. Não tinha árvore. Não tinha nada. Só ela e a chuva. Ela estava completamente encharcada esperando o ônibus. Eram 21h31 da noite.

E ali aconteceu algo simples, mas muito forte: a perspectiva mudou.

Na psicologia social existe um conceito chamado tomada de perspectiva, ligado ao estudo da empatia. Pesquisadores explicam que nós tendemos a interpretar o mundo a partir do nosso próprio lugar — o que também é chamado de viés egocêntrico.

Aquilo que não atravessa diretamente a nossa rotina pode parecer exagero, drama ou simplesmente “gente reclamando demais”. Até que a realidade do outro aparece na nossa frente.

Enquanto eu estava preocupada com o meu edredom, aquela mulher estava lidando com chuva, noite, solidão e espera.

E, sendo muito honesta, aquilo me fez pensar em outra coisa: a gente luta muito pelos nossos próprios pedidos. A gente insiste, cobra, reclama, às vezes até grita para ser ouvido. Mas quando o pedido vem do outro: “Ah, nem é tão grave assim.”

Mas é grave para alguém. Aquilo me deixou reflexiva sobre algo muito simples: talvez eu precise lembrar mais vezes que nenhum pedido nasce do nada. Sempre existe uma experiência concreta por trás.

Espero sinceramente que aquela mulher tenha chegado em casa com segurança.

Porque, depois de tudo que vemos nos noticiários e depois de tudo que falamos neste mês sobre mulheres, é impossível não pensar nisso.

Talvez ela tenha chegado bem. Eu torço para que sim. Mas uma coisa é certa: aquele pedido no grupo do bairro nunca mais vai parecer pequeno para mim.

Às vezes a gente só precisa de uma cena na chuva para lembrar que o mundo não gira apenas em torno do nosso edredom.

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Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.

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Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.

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