Anita Presbitero: a mulher que criou um território de afeto e livros
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
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O ato de ler é, por natureza, solitário. É o encontro silencioso entre quem escreve e quem lê. Mas no Recife, um grupo de mulheres decidiu subverter essa regra. Elas transformaram o livro em uma ponte de papel.
Hoje, o coletivo Floriterárias reúne mais de 300 integrantes que decidiram não caminhar sozinhas entre as páginas. O que começou em um apartamento no bairro do Arruda, Zona Norte do Recife, hoje é um movimento de ocupação de espaços e resgate da voz feminina na literatura.
As Floriterárias nasceram de uma falta que não era teórica. Era física. Anita Presbitero, co-fundadora do projeto, é pedagoga, livreira e professora de biblioteca pelo Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores pela Secretaria de Educação de Recife. Isso entre outras atividades que desenvolve, como terapeuta integrativa.
Atualmente, no entanto, a mulher - que recebeu o nome de uma revolucionária - conduz o projeto Floriterárias sozinha desde 2020, ano da pandemia, mas a curadoria é dividida com as participantes. Ela também vive entre o silêncio dos sebos e o barulho das salas de aula da rede pública. Como mil mulheres em uma só e múltiplos corações. Por isso a importância de contar essa história na coluna Pernambuco que encanta.
"Eu sempre fui uma leitora muito assídua e percebia que a literatura era solitária. Nos ambientes que eu circulava — saraus, lançamentos e eventos literários —, eu sentia falta de uma troca real e de uma presença feminina maior nas prateleiras e nos palcos”, recorda.
Anita via o cenário com olhos atentos. Percebia o silenciamento invisível. “Eu percebi que os saraus eram um ambiente muito masculinizado, em que as mulheres não estavam muito presentes recitando. Eu não via muitas escritoras mulheres”.
A necessidade, portanto, era urgente: colocar a mulher em um espaço de segurança. Um lugar onde ela pudesse falar do que leu sem o medo do julgamento acadêmico.
O riso do pai
Para entender o Floriterárias, é preciso cruzar o oceano. Anita nasceu no Sul da Alemanha, filha de brasileiros que decidiram se mudar para a Europa durante os tempos sombrios da ditadura civil-militar. Eles queriam “ter a liberdade de viver em paz”. Para isso, juntaram todas as economias, fizeram empréstimos e se mudaram. Eram vistos como “refugiados políticos, latino-americanos vindos de ditaduras”.
Eles trabalhavam em terras alemãs nas férias, para sustentar a jornada, mas, ao mesmo tempo, estudavam na Itália. Passaram 10 anos entre um país e outro. Em Roma, Anita foi alfabetizada e abriu os olhos para o mundo.
Seu pai, o arquiteto e artista visual Roberto da Silva, deu para a filha o que recebeu do seu avô: o dom de contar histórias. Ele foi o primeiro mediador de leitura que ela conheceu. Antes dos livros, veio a voz.
"Foi meu pai contando-me histórias que me incentivou a ser a escritora que eu sou”, disse, frisando que está gestando o seu livro. “Nas contações à noite, antes de dormir, eu me inspirei. Às vezes, ele passava um tempão rindo para depois conseguir contar, porque ele ficava rindo das coisas que ele estava inventando.", rememora. Dessa herança oral, Anita entendeu que a história é uma roda ancestral. Da mãe, Cristina Presbitero, socióloga e professora de italiano, herdou o espírito aguerrido e determinado pelas causas coletivas.
O e-mail dentro do livro: o grito contra a solidão
De volta ao Brasil, a adolescência de Anita em Pernambuco foi marcada por uma busca incessante por interlocução. Estudante de escola pública, ela chegava a "gazear" aulas de educação física no Parque 13 de Maio para se esconder na Biblioteca Pública do Estado. Frequentava a mítica Livro 7 sem dinheiro para comprar, lendo em pé, devorando páginas entre as estantes para saciar uma fome que não era de comida.
A solidão de ler era tanta que ela criou uma tática quase poética: escrevia seu e-mail em pedaços de papel e os escondia dentro dos livros que alugava nas bibliotecas públicas. Era uma mensagem na garrafa jogada ao mar de estantes, na esperança de que outra náufraga a encontrasse.
"Eu queria saber se alguém podia conversar comigo sobre o que eu lia". Deu certo. Conheceu pessoas, mas ainda sentia o corte: nos ambientes literários da juventude, dominados pela poesia marginal, as mulheres ainda eram coadjuvantes. Anita queria o protagonismo do microfone para as mulheres.
A literatura como escudo e sobrevivência
Aqui o texto toca o lugar da cura. Para Anita, o livro nunca foi apenas entretenimento. Foi remédio e proteção. Em meio a dores profundas e vivências traumáticas que marcaram sua trajetória na infância, a literatura serviu como a tábua de salvação que a manteve à tona. "Essas dores muito fortes fizeram com que os livros me ajudassem a sobreviver", confessa com a serenidade de quem transformou a cicatriz em escrita.
Essa revelação dá um novo sentido ao coletivo que ela coordena. Ler mulheres, entre mulheres, tornou-se um processo de cura compartilhada. "Reler esses livros, ou ler pela primeira vez obras escritas por mulheres, me fez refletir muito. Me senti mais mulher, mais forte, mais humana. O livro provoca reflexões, mas também mexe em feridas".
No Floriterárias, o acolhimento do grupo funciona como curativo para as questões que as páginas insistem em levantar. Anita conhece bem os dilemas que nascem do papel. O primeiro livro que ganhou, aos sete, foi O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. O segundo, aos 15, foi O Príncipe, de Maquiavel. Entre a doçura de um e a crueza estratégica do outro, ela construiu sua própria forma de exercer o poder: o poder do afeto coletivo.
A pichação poética no Arruda
O nascimento oficial do grupo, em abril de 2016, teve o tom de um manifesto doméstico. No seu apartamento no Arruda, Zona Norte do Recife, Anita reuniu amigas para debater "Linha M", de Patti Smith, a madrinha do Punk. Não houve formalidades. Houve entrega. “Na parede da minha casa, eu dei um hidrocor piloto e elas escreveram, picharam poesia, desenharam. Foi lindo”. Aquelas pichações eram o aviso: aquele espaço agora pertencia a elas.
O movimento cresceu, ganhou o WhatsApp e as ruas. Hoje, como "ciganas da palavra", elas não têm sede fixa, preferindo circular pela alma da cidade. Atualmente, os encontros ocorrem no Centro Marta Almeida, na Rua do Bom Jesus, em parceria com a Secretaria da Mulher do Recife. São momentos gratuitos para todas as mulheres — cis, trans, travestis.
O microfone é delas: o sarau
Em 2023, Anita percebeu que o clube estava gestando escritoras. O compartilhar da leitura já não bastava; era preciso o eco da voz. "As mulheres se sentem mais à vontade quando o movimento é 100% delas".
No Sarau das Floriterárias, o protagonismo é feminino, embora o público seja misto. Homens e crianças são bem-vindos para ouvir, mas quem recita a própria história é a mulher. Ali, homenageiam referências como Cida Pedrosa, Odailta Alves e Inaldete Pinheiro, transformando o silêncio de séculos em potência pública.
Travessias para 2026: a diversidade como bússola
O calendário de 2026 é um mapa de resistência. Começaram com a distopia de Margaret Atwood e seguirão por Maryse Condé, Hilda Hilst e a poesia indígena de Márcia Wayna Kambeba. Em novembro, o foco será a moçambicana Paulina Chiziane.
"Nós lemos as mulheres que Shakespeare descrevia para entender como aquela Idade Média ainda ressoa no agora", explica Anita. É uma curadoria plural, decidida em conjunto no grupo de WhatsApp que hoje abriga 300 vozes. Elas votam, sugerem e fortalecem o mercado editorial feminino com cada livro escolhido.
A semente que voa
Ao completar 10 anos de estrada no Floriterárias, Anita Presbitero olha para trás e vê que o processo de cura não foi apenas dela, mas de uma multidão. Suas "Floras" às vezes replicam o modelo em condomínios, igrejas e escolas, como sementes de um jardim que não aceita mais cercas.
Ela, que já fundou zines e bibliotecas comunitárias, segue sendo a agitadora cultural que entende o livro como um organismo vivo. Mas, no fundo, a maior obra de Anita não está nas prateleiras: está no fim do silêncio.
No deserto da leitura solitária, Anita e suas mulheres construíram um oceano. E as pontes de papel seguem firmes, sustentando o peso de quem finalmente descobriu que ler acompanhada é, antes de tudo, não estar mais sozinha no mundo.
Como escreveu Virginia Woolf, uma arquiteta da linguagem odiada por Hitler: “Leia mil livros, e suas palavras fluirão como um rio”. No Floriterárias, esse rio é feito de águas que um dia foram represadas pela dor. Quando a roda se fecha e uma mulher lê para a outra, Anita finalmente encontra a resposta para os bilhetes que escondia nos livros da juventude.
Aquela menina que buscava sair da solidão em e-mails deixados em páginas esquecidas não está mais sozinha. Hoje, ela não precisa mais de esconderijos; ela tem uma ponte. E, sobre essa ponte de papel, 300 mulheres caminham juntas, segurando os livros e, principalmente, umas às outras.
Quer participar do Floriterárias?
Instagram - @floriterarias
Email - [email protected]
Zap - 81 97906-7371
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PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.