Solidariedade é contagiante, apontam especialistas
Segundo eles, há uma explicação científica por trás do fenômeno. Tema veio à tona após população recolher carga de refrigerante
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Em meio a um cotidiano marcado por notícias negativas, gestos de ajuda ao próximo costumam ganhar destaque e emocionar milhares de pessoas. E um ato de solidariedade pode ser contagiante, afirmam especialistas.
Há uma explicação científica por trás do fenômeno: quando alguém ajuda outra pessoa, o sistema de recompensa cerebral é ativado, o mesmo circuito associado a experiências prazerosas, como saciar a fome ou realizar atividades que geram satisfação.
“Quando a pessoa está em uma atividade altruísta, além de liberar a dopamina, outros neurotransmissores estão implicados, como a serotonina, que regula a emoção, a oxitocina, o 'hormônio do amor' e da aproximação. Isso é importante para a saúde mental”, destaca o psiquiatra Valdir Campos.
Além do bem-estar físico, ajudar alguém ainda pode causar um “contágio emocional”, conforme explica a psicóloga Naira Delboni.
“Esse é um fenômeno que mostra que emoções e comportamentos se propagam em grupos. Quando observamos alguém ajudando, nosso cérebro interpreta aquilo como um comportamento socialmente valorizado e seguro de ser reproduzido. Além disso, podemos dizer que a generosidade aumenta a probabilidade de que outras pessoas também ajam da mesma forma”, destaca.
Foi justamente isso que aconteceu no último fim de semana, quando um vídeo publicado no Tik Tok, no perfil de uma usuária chamada Ester Martins, viralizou, com mais de 8 milhões de visualizações.
A gravação mostra uma carga de garrafas de refrigerante espalhadas na avenida Nossa Senhora dos Navegantes, na Enseada do Suá, em Vitória. Várias pessoas se unem para recolher os produtos e devolver ao motorista do carro que carregava a carga.
Na análise da psicóloga e colunista de A Tribuna Sátina Pimenta, esse tipo de vídeo ganha engajamento pelo fator emocional, de identificação, além da saturação de notícias negativas.
“A exposição constante a conteúdos sobre violência, crises e conflitos tem gerado cansaço emocional nas pessoas. Como resposta, surge um movimento de busca por conteúdos que tragam esperança, leveza e sentido. Os vídeos de solidariedade entram exatamente nesse espaço, eles funcionam como uma pausa emocional, um respiro”.
O que eles dizem
Sensação de utilidade
“O fato de ajudar outras pessoas é importante para saúde mental e traz sensação de utilidade. Estudos mostram também que pessoas envolvidas em atividades solidárias têm menor risco de desenvolver ansiedade, depressão e até comportamento suicida. Além disso, elas tendem a apresentar melhor qualidade de sono, mais disposição e maior sensação de bem-estar. E um dos princípios cristãos é fraternidade, e esse princípio é universal”.
Influência
“A solidariedade pode, sim, ser contagiante, mas não de forma automática. Todo comportamento tem potencial de influenciar o outro, porém, para que isso aconteça, o gesto precisa fazer sentido para quem observa. Quando vemos alguém ajudando em uma situação que nos toca, que dialoga com nossos valores ou experiências, há uma tendência maior de nos engajarmos também”.
Infância e adolescência
“Quando a gente pratica ou presencia um gesto solidário, o cérebro interpreta essa experiência como algo positivo e seguro. Isso ativa áreas relacionadas às emoções, ao prazer e às relações sociais. Esse processo é especialmente importante na infância e na adolescência, fases em que o cérebro ainda está em desenvolvimento e é mais sensível a experiências sociais”.
Saiba Mais
Ativação cerebral e neurotransmissores
Gestos solidários ativam o sistema de recompensa do cérebro, o mesmo ligado a experiências prazerosas.
Esse processo libera substâncias associadas ao bem-estar, como dopamina (prazer e motivação), serotonina (regulação do humor) e ocitocina (vínculo e conexão social). Essa resposta fisiológica reduz o estresse, aumenta a sensação de segurança emocional e reforça comportamentos de cooperação.
Empatia e identificação
A emoção diante de um ato solidário ocorre porque ativa memórias, valores e experiências pessoais. Mesmo sem participação direta, a pessoa consegue se reconhecer na situação por meio da empatia e da chamada simulação emocional, a capacidade de imaginar o que o outro sente.
Contágio emocional e comportamento social
A solidariedade pode se espalhar socialmente por identificação. Quando a pessoa observa um gesto que faz sentido para ela, aumenta a probabilidade de reproduzir esse comportamento.
Esse fenômeno, conhecido como contágio emocional, reforça a ideia de que ajudar é seguro, valorizado e recompensador.
Pertencimento e propósito
Praticar o bem fortalece a sensação de utilidade, conexão e pertencimento, fatores protetivos importantes para a saúde mental. A experiência solidária amplia a percepção de lugar no mundo e contribui para a construção de significado pessoal.
Saúde mental
Estudos mostram que pessoas envolvidas em atividades solidárias têm menor risco de desenvolver ansiedade, depressão e até comportamento suicida.
Quando a solidariedade faz parte da rotina desde a infância e a adolescência, ela contribui ainda – além de reduzir ansiedade – para diminuir a sensação de solidão e fortalecer a autoestima.
Ao longo do tempo, isso ajuda no desenvolvimento de uma saúde mental mais equilibrada, com maior capacidade de empatia, convivência e construção de relações saudáveis.
Qualidade do sono
Além disso, pessoas que se envolvem em ações altruístas tendem a apresentar melhor qualidade de sono, mais disposição e maior sensação de bem-estar.
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