“Amo samba”, diz cientista que pesquisa polilaminina
Responsável por estudo que devolveu a esperança a pessoas tetraplégicas diz que seu único lazer é curtir roda de samba
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Ela não tem uma vida social agitada, não vai ao cinema há mais de 10 anos, nem encontra prazer em deitar para assistir uma série.
Mas quando encerra o expediente, já tarde da noite, Tatiana Lobo Coelho de Sampaio pega um Uber até a Lapa, no Rio de Janeiro, e se mistura à roda de samba.
É ali que a cientista, que se dedica há três décadas à pesquisa da polilaminina — estudo que reacendeu a esperança de pacientes com lesões na medula — encontra o que chama de experiência quase religiosa: cantar junto. “Amo o samba”, revelou Tatiana.
A vida fora do laboratório, no pouco tempo que tem livre, chegou a render postagens nas redes sociais durante o Carnaval. Uma foto com ela ao lado de foliões, enquanto curtia um bloco no Rio de Janeiro, viralizou.
Em entrevista à reportagem de A Tribuna, ela também falou sobre a trajetória profissional e disse que desde a infância nunca teve dúvida de que seria pesquisadora. “Ser cientista era algo natural para mim”.
Discreta e sem redes sociais, Tatiana revelou o que mudou na sua vida, desde que os resultados de estudos feitos até o momento com a polilaminina – proteína extraída da placenta humana – foram divulgados.
A polilaminina teve o início dos estudos clínicos de fase 1 autorizados em janeiro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os estudos estão sendo conduzidos pelo laboratório Cristália, com previsão de início em março.
CONFIRA A ENTREVISTA:
A Tribuna: Mesmo com início dos estudos clínicos feitos pelo Cristália, paralelamente continua ainda pesquisando a polilaminina para outras áreas?
Tatiana Sampaio Com certeza. Dos estudos clínicos, eu participo apenas como consultora agora. Mas, paralelamente a isso, temos coordenado na universidade outros estudos acadêmicos em cães com a polilaminina, por exemplo, para uso crônico.
O uso crônico seria para lesões mais antigas?
Isso, para lesões medulares mais antigas. As pesquisas na universidade não param.
A ampla divulgação de resultados sobre os estudos com a polilaminina tem apenas alguns meses. A vida mudou muito desde então?
Completamente. Passei a ter outras obrigações que não era só atuar nas pesquisas, com entrevistas, convites, prêmios. Eu já estava achando a vida mais difícil, mas não tinha ideia de como podia piorar. Depois do uso compassivo – em que a Justiça determina a obrigatoriedade do fornecimento da polilaminina – aí foi o caos completo.
Mas por quê?
Pelo acúmulo. Hoje eu recebo 10 convites por dia para falar em aberturas, em simpósios, em congressos, tudo o que se possa imaginar.
Não recebia antes nesse volume?
Não recebia praticamente convite nenhum. Agora não estou dando conta (risos).
A senhora não tem redes sociais por não gostar muito dessa exposição, mas sabia que nas redes sociais sempre é muito citada e conhecida?
Sim. Me falam. Vi que me citam até quando se fala em importância do investimento em pesquisa nas universidades. Acredito que essa é uma parte positiva. Realmente, quando uma pesquisa chega a uma fase dessa, de poder virar um medicamento que pode salvar vidas, as pessoas passam a entender o porquê de ter tanta gente trabalhando em pesquisa. Isso ajuda a fazer uma conexão.
E sempre quis ser cientista?
Sempre. Desde que eu era criança nunca me vi fazer outra coisa. Para mim sempre foi meio óbvio. Desde a graduação, fui seguindo. Tive bolsa de mestrado, de doutorado, depois fiz pós-doutorado. Fiz o concurso na universidade e fui seguindo na área.
E como o samba entra nessa vida de tanto trabalho?
Olha, eu amo o samba. Mas não divido o meu tempo entre a pesquisa e o samba, até porque estou quase sempre trabalhando mesmo. Seria até injusto dizer isso.
Mas acontece que eu geralmente trabalho até muito tarde, 22h ou 23h, por exemplo. É raríssimo o dia que estou livre às 19h.
É o lazer que o horário permite?
Isso. Eu não malho, eu não vou ao cinema há mais de 10 anos, eu não vou ao teatro, eu não vou ao restaurante, eu não vou na casa de ninguém, eu não vou no jantar de ninguém.
E eu não faço nada porque eu nunca posso mesmo. E quando estou em casa, eu estou trabalhando também. Então na hora que acabo o meu expediente, o que tem aberto?
O samba...
Sim. A gente fica boêmio na vida. Então, às 23h eu poderia ir dormir, mas eu sou agitada e não durmo muito. Poderia ir dormir, ler um livro ou assistir a uma série, mas nem pensar. Não consigo. Eu prefiro conversar, ver gente, porque a cabeça fica cheia.
Não é que eu seja uma pessoa com uma vida social agitada e nem com uma vida paralela, muito pelo contrário, acho que eu sou uma pessoa que praticamente só trabalha. Mas quando dá, vou na Lapa, que é pertinho da minha casa. Sento ali, vejo um samba.
Eu acho que a roda de samba tem uma coisa muito bacana que é a de pessoas cantarem juntas. É quase algo religioso. Um espaço para congregação, porque em um culto e em uma missa todos cantam juntos também.
Vai com amigos?
Não preciso de ninguém para sair, mas é claro que a gente conhece pessoas, faz amigos. Acho que nos últimos cinco ou seis anos essa é minha rotina, então conheço muita gente.
Mas, agora, está sendo reconhecida na rua?
Sim. Algumas pessoas param para falar comigo, para tirar foto. Acho interessante.
Mas esse reconhecimento não é algo que perseguiu, pelo que diz?
Não. Não sou uma pessoa vaidosa, de querer ser admirada, não tenho isso mesmo. Mas eu reconheço que ser conhecida te dá uma grande vantagem, que é ter voz. Então, quando as pessoas te conhecem, te reconhecem, elas te escutam, querem saber o que você pensa. Ter voz é uma bênção e uma responsabilidade.
Mas hoje o que busca falar com essa “voz”?
Eu acho que o que mais eu tenho falado é sobre a importância de ter um investimento em universidades. E também sobre desmistificar um pouco ideias muito opostas no meio acadêmico.
Porque tem um lado de pessoas que acham que a ciência tem que ser totalmente livre, não precisa ter um objetivo.
Eu não vejo assim. Eu acredito que precisamos ter ciência básica, mas isso não é desculpa para não fazer a ciência aplicada. Tem que ter um pouco de tudo.
Não dá para achar que também não é necessário prestar conta do resultado. Na vida, temos que prestar conta a alguém sempre.
Então cientista tem que ter liberdade, professor tem que ter liberdade, mas eu acho que não pode ter exagero.
O oposto também é a mesma coisa. Não dá para investir somente em pesquisas que se sabe que vão ter resultado imediato também.
É um fenômeno engraçado, porque eu não concordo com ninguém e ninguém discorda de mim.
QUEM É
Tatiana Lobo Coelho de Sampaio
Professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde chefia o laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas.
graduada em Ciências Biológicas, tem mestrado e o doutorado e dois estágios de pós-doutorado, um em Imunoquímica na Universidade de Illinois (EUA) e outro em Inibidores de Angiogênese na Universidade de Erlangen-Nuremberg (Alemanha).
Há 25 anos realiza pesquisas para desenvolvimento da polilaminina – proteína extraída da placenta humana – voltada para regeneração neural.
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