Saúde mental: apenas 20% das pessoas com TDAH são tratadas
Dos 230 mil moradores do Estado que têm o transtorno e podem fazer uso de remédios, 46 mil recebem o tratamento adequado
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Foi aos 7 anos que o servidor público federal Gabriel Santa Clara, de 25 anos, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e começou a tomar medicação para melhorar o foco e a concentração.
Gabriel faz parte dos 230 mil moradores do Espírito Santo que têm o transtorno e podem fazer uso de remédios psicoestimulantes, como Ritalina, Venvanse e Atentah. Porém, apenas 20% dos pacientes recebem tratamento adequado no País, apontam estudos – o equivalente a 46 mil pessoas no Estado.
A prevalência de TDAH no Brasil é estimada em 7,6% em crianças e adolescentes com idade entre 6 e 17 anos; 5,2% nos indivíduos entre 18 e 44 anos e 6,1% em maiores de 44 anos, segundo relatório de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
Mas há também quem não tem o diagnóstico e ainda assim faz uso dos psicoestimulantes para produtividade durante os estudos para provas e concursos.
Estudos internacionais, como do Jama Psiquiatria de 2025, estimam que 5% a 25% da população adulta usam ou usaram alguma vez os psicoestimulantes sem diagnóstico formal de TDAH, conforme apontou a neurologista Soo Yang Lee. Considerando a porcentagem mínima, no Espírito Santo seriam 150 mil pessoas.
Os cálculos são estimativas feitas pela reportagem com base nas Projeções da População 2026 do IBGE.
“Muitas vezes, o que acontece nessas pessoas sem TDAH, é que o medicamento tira uma eventual sonolência ou fadiga mental, dando a impressão de melhorar o rendimento”, explicou a neurologista Soo Yang Lee, que atua com TEA e TDAH em adultos.
Os estudos mostram, porém, segundo a neurologista da infância e adolescência Ana Carolina Macedo, que em pessoas sem TDAH os ganhos cognitivos tendem a ser modestos e inconsistentes, enquanto os riscos são bem documentados, incluindo ansiedade, insônia, dependência, alterações do humor e efeitos adversos à saúde.
“Existe uso, mas a ciência não sustenta a ideia de que essas medicações funcionem como ferramentas seguras e eficazes de 'melhora de performance' em indivíduos sem TDAH”.
Entenda o transtorno
TDAH
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas como desatenção, inquietude e impulsividade.
Sinais
O TDAH na infância, em geral, se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças são tidas como “avoadas”, “vivendo no mundo da lua” e geralmente “estabanadas ” ou “ligadas por um motor”, isto é, não param quietas por muito tempo.
OS MENINOS tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos. Crianças e adolescentes com TDAH podem apresentar mais problemas de comportamento, como, por exemplo, dificuldades com regras e limites.
Em mais da metade dos casos, o transtorno acompanha o indivíduo na vida adulta, embora os sintomas de inquietude sejam mais brandos.
Para adultos com TDAH, pode ser um pouco mais difícil fazer um diagnóstico, pois a hiperatividade característica do transtorno diminui com o passar dos anos.
Gastando energia
Um dos efeitos do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em Gabriel Santa Clara, 25, é a agitação, ainda mais presente quando ele se sente entediado. “Quando me sinto assim, saio para caminhar na orla. Meu cérebro pede por dopamina: livros, estudos. Tudo aquilo que amo fazer, faço. Assim me regulo. Gasto também muita energia com esportes, como pedal, trilha e caminhada”, conta.
Apesar de achar que a medicação em seu tratamento seja fundamental, Gabriel é categórico: “Mas não podemos viver apenas do remédio. A medicação ajuda a regular os neurotransmissores, especialmente dopamina e noradrenalina, mas o movimento é um regulador biológico tão poderoso quanto qualquer medicação”.
“O grande problema era o foco”
Durante uma terapia de casal com sua esposa, um supervisor de vendas de 37 anos, que preferiu não se identificar, foi orientado pela psicóloga a fazer um teste para identificar o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
“Na época eu tinha 26 anos, fiz vários testes e fui encaminhado ao psiquiatra, que confirmou o diagnóstico. Os sintomas eram tão intensos que eu esquecia de tomar a medicação”.
“Antes da descoberta, eu lembro que tinha muita dificuldade na escola, meu foco era muito ruim. O grande problema da minha vida era o foco, mas para mim o medicamento foi muito bom”, contou.
Fique por dentro
Medicamento
Pessoas com TDAH normalmente têm como principais indicações de medicamentos para o tratamento do transtorno os estimulantes metilfenidato (Ritalina e Concerta) e lisdexanfetamina (Venvanse), e os não estimulantes como atomoxetina (Atentah).
Como agem
O metilfenidato e lisdexanfetamina são psicoestimulantes. Atuam nos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico, com alta eficácia clínica, segundo explicou a neurologista da infância e adolescência Ana Carolina Macedo. Em contextos de uso inadequado (altas doses, via de administração não oral, uso recreativo), há risco de abuso.
Atomoxetina é um não estimulante inibidor seletivo da recaptação de noradrenalina. O início da ação é lento, tem menor potencial de abuso principalmente porque não age diretamente na dopamina.
Tratamento
Além da medicação, o tratamento eficaz do TDAH é multimodal e inclui, de acordo com Ana Carolina Macedo: psicoeducação da família e do paciente, terapia cognitivo-comportamental, intervenções parentais, adaptações escolares, suporte psicopedagógico, organização ambiental, tratamento e manejo das comorbidades.
Fornecimento pelo SUS
O medicamento metilfenidato é disponibilizado nas Farmácias Cidadãs Estaduais. Pacientes atendidos com metilfenidato no Espírito Santo:
2020: 5.958
2021: 4.911
2022: 5.738
2023: 7.071
2024: 8.285
2025: 8.988
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