Quem é Mestre Ciça, homenageado pela escola vencedora do carnaval 2026 do Rio
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Moacyr Silva Pinto, o Mestre Ciça, de 69 anos, é um dos mais importantes personagens do carnaval do Rio de Janeiro. Extremamente respeitado no meio do samba carioca por seu trabalho na regência da bateria da Viradouro, ele não é daquelas figuras, digamos, mais midiáticas. Pelo contrário, é conhecido por sua humildade. Por isso, a vitória do enredo que o homenageou na avenida está sendo vista como a redenção do sambista raiz.
Ele é sempre um dos primeiros componentes da escola a chegar no dia do desfile, horas antes da apresentação, para preparar a sua “orquestra”, participar da afinação dos instrumentos. Não por acaso, é aclamado pelos próprios sambistas como o “mestre dos mestres”.
Fumante inveterado, muito magrinho, ele também não escapou de um apelido menos laudatório: mestre caveira. Mas tampouco o renegou, pelo contrário. Adotou a caveira como um amuleto.
Ciça já fez até uma promessa em meio à comemoração pelo título. “É muita emoção, muita alegria. A emoção foi de ver a avenida, a arquibancada. Não tenho palavras. E vou até parar de fumar”, prometeu o mestre de bateria.
Durante a apuração na Cidade do Samba, Ciça acompanhou a leitura dos votos nesta quarta-feira, 18, atento e emocionado. A cada nota 10, vibrou com os integrantes da mesa. “Essa vitória é resultado de muito trabalho, muito suor. Foi um desfile lindo que reconheceu a grandeza e importância de Ciça para o samba”, disse o presidente do Viradouro, Marcelinho Calil.
Mestre de bateria mais longevo em atividade
A carreira de Ciça começou em 1971, como passista, na Unidos de São Carlos - considerada a primeira escola de samba do carnaval do Rio, herdeira da lendária Deixa Falar. Somente em 1977, tornou-se ritmista, tocando agogô de duas bocas.
De lá para cá, foram quase cinco décadas até alcançar o comando da bateria de uma das principais agremiações do Rio. Com quase 40 anos nessa função, ele é o mestre de bateria mais longevo em atividade.
Em 1983, a São Carlos mudou de nome, passando a se chamar Estácio de Sá. Seis anos depois, Ciça já era o mestre da bateria e brilhou no histórico carnaval de 1992, quando a Estácio levou para a avenida o enredo vitorioso “Paulicéia Desvairada”, sobre o movimento modernista de 1922.
Este ano, além de regente, ele se consagrou como enredo campeão, com “Pra Cima, Ciça”, em um desfile que emocionou o público na Sapucaí, mas, sobretudo, os próprios sambistas. No desfile, a Viradouro apresentou seu início na Estácio, bem como sua passagem por escolas como União da Ilha, Grande Rio e Unidos da Tijuca, até os títulos mais recentes na própria Viradouro, em 2020 e 2024.
Em uma época marcada por enredos muitas vezes extremamente elaborados, a escolha da Viradouro não foi apenas afetiva, mas também uma forma de homenagear a resistência do samba na figura do franzino e genial Ciça. E o fato de ser enredo na própria escola não mudou sua rotina. Chegou cedo, organizou os ritmistas e, sentado no meio-fio, esperou pacientemente o início do desfile.
No desfile, Ciça se apresentou com a comissão de frente da escola e depois (andando de moto por dentro do Sambódromo) voltou ao início da pista para se juntar a sua bateria, que encerrou o desfile. Ele reeditou uma outra cena icônica, do carnaval de 2007 comandado por Paulo Barros, que colocou todos os ritmistas em cima de um carro alegórico. No desfile deste ano, ele se apresentou ao lado da rainha da bateria, a atriz Juliana Paes.
“Levar um campeonato para o Mestre Ciça, que merece tanto, acho que é por isso que está todo mundo consternado, emocionado. Ele é a humildade em pessoa. É um cara simples, do povo”, disse a atriz.
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