Golpe Bancário: empresário perde 990 mil após ligação de 50 segundos
Vítima de 68 anos alega que criminosos fizeram transferências após bloqueio de aplicativo do banco. Instituição negou ressarcimento
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Internado em um hospital após sofrer um acidente de trabalho que resultou em um ferimento no dedo, um empresário de 68 anos alega que levou um susto ao descobrir que teve um prejuízo de R$ 990 mil após cair em um golpe bancário.
Morador de Cariacica e com empresa no ramo de projetos e obras de combate e prevenção a incêndios em Vitória, ele conta que havia realizado um pagamento a um funcionário e, ao tentar acessar a conta novamente, percebeu que o aplicativo do banco estava bloqueado.
Minutos depois, no dia 22 de janeiro deste ano, seu telefone tocou. Era um número desconhecido, com prefixo de São Paulo. Do outro lado da linha, uma mulher que se identificou como funcionária do seu banco informou sobre movimentações suspeitas na conta bancária do empresário. A ligação durou cerca de 50 segundos.
“Eu não passei dado algum pelo telefone para essa pessoa. Não faço isso. Eu disse que entraria em contato com a gerente do meu banco, o que fiz por volta das 18h30 do mesmo dia. Só que ela respondeu que já estava em casa e não poderia resolver naquele momento”.
O empresário conta que a gerente pediu para que ele aguardasse até o dia seguinte, uma sexta-feira, que iria verificar quando chegasse à agência. “Tentei contato das 9h30 e, somente às 12h40, ela me atendeu e disse que eu tinha sido vítima de um golpe”.
Mas ele conta que ainda não tinha descoberto o valor do rombo. “Somente na segunda-feira (26/01), já de alta hospitalar, eu fui ao banco e soube que o criminoso tinha agendado pagamentos de boletos e TED (Transferência Eletrônica Disponível), em valores variados, entre R$ 120 mil e R$ 200 mil”.
Segundo o empresário, a pedido do banco registrou um boletim de ocorrência e escreveu uma carta de próprio punho contando o ocorrido. “O banco pediu 10 dias para dar uma resposta e depois disse que eu não seria ressarcido porque tinha usado senha bancária para fazer transações, o que não é verdade”, garantiu.
Sensação de impotência
A Tribuna: Como o senhor descreve o momento em que recebeu a notícia de que tinha perdido R$ 990 mil?
Empresário: Foi um choque, um sentimento de total impotência. Você trabalha uma vida inteira, constrói um patrimônio com muito esforço, e, de repente, vê quase R$ 1 milhão desaparecer do nada. É devastador. Esse dinheiro estava aplicado e rendia R$ 12 mil por mês.
Além do prejuízo financeiro, tem o abalo emocional. Eu sempre fui muito cuidadoso com minhas finanças, nunca passo informações pessoais por telefone.
A Tribuna: O senhor tinha esperança de que seria ressarcido pelo banco?
Empresário: Eu imaginei que seria, até porque não fiz nenhuma transação, nenhuma transferência desses valores. Fiquei sem chão quando soube que o banco disse que não devolveria.
A Tribuna: O que o senhor fez?
Empresário: Constituí um advogado e ingressamos com uma ação na Justiça. O caso segue em tramitação. Também conversei com policiais, registrei Boletim de Ocorrência e aguardo o desfecho.
A Tribuna: Suspeita do que pode ter acontecido?
Empresário: Suspeitas a gente tem, mas vou deixar a polícia investigar. O que tenho certeza é de que fui vítima desse crime cibernético. Se foi ação de hackers ou teve a participação de alguém, isso é a polícia que vai dizer. Mas uma coisa é estranha. Os bancos costumam telefonar para confirmar transações com valores mais altos, mas não foi isso que aconteceu comigo desta vez.
Caso é denunciado e investigado pela polícia
O caso do empresário é investigado pela Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC). O delegado Brenno Andrade, titular da DRCC, falou sobre esse tipo de crime.
“A gente tem percebido aqui na delegacia que, em vários crimes, as vítimas alegam que não fizeram transferência, não passaram dados para os criminosos, como conta bancária, CPF ou senha. Em alguns casos, muitos desses criminosos já tinham acesso previamente à conta da vítima, seja por meio de links falsos nos quais clicou anteriormente. Ela pode ter clicado sem perceber e passado as informações que os criminosos precisavam”.
Outra possibilidade é ter sido vítima do SIM swap, ou seja, o chip telefônico pode ter sido clonado.
Há ainda situações de phishing, em que a pessoa acessa um site falso acreditando se tratar da página oficial da instituição financeira e acaba inserindo seus dados em um ambiente fraudulento.
“Naquele momento não aconteceu nada, mas a vítima teve seus dados obtidos pelos criminosos. Quando ligam, na verdade, eles já estão com a engenharia social montada, para verificar se a vítima estava num momento de distração, ou para ver se podiam ganhar tempo”.
Ele revela ainda que já foram identificados casos de pagamentos agendados anteriores ao contato falso feito com a vítima pelo telefone. “No dia seguinte ou alguns dias depois, os criminosos entram em contato para tentar distrair a vítima e saber se ela está ocupada, num momento de distração, ou seja, um momento ideal para praticarem o golpe”.
O delegado ressalta ainda que é muito difícil o criminoso entrar por si só na conta da vítima e fazer a transferência. “Óbvio que isso pode acontecer, mas é mais improvável. E, se acontecer, se a conta for invadida indevidamente, o banco costuma restituir esses valores”.
Já o especialista em Segurança Digital Eduardo Pinheiro destaca que, ao receber ligações de pessoas se passando por funcionários de instituições financeiras, a principal dica é não fornecer informações, desligar o telefone e entrar em contato com o gerente do banco.
Orientações
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) orienta que os clientes sempre verifiquem a origem das ligações e mensagens recebidas contendo solicitações de dados.
“Os bancos podem entrar em contato com os clientes para confirmar transações suspeitas, mas nunca solicitam dados pessoais, senhas, atualizações de sistemas, chaves de segurança, ou ainda que o cliente realize transferências ou pagamentos alegando estornos de transações”.
Ao receber uma ligação suspeita, de acordo com a Febraban, o cliente deve desligar e, de outro telefone, entrar em contato com os canais oficiais de seu banco.
Em virtude do horário da entrevista, após o fim do expediente bancário, não foi possível o contato da reportagem de A Tribuna com a agência do empresário.
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