“Minha realização”: pai e braço direito de Leopoldo Nóbrega visita o Galo de maca
Aos 74 anos e internado há um mês, braço direito e pai do artista Leopoldo Nóbrega emociona o Recife ao visitar a escultura em ambulância
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Com informações de Simone Santos
O som da sirene que cortou o mormaço da Ponte Duarte Coelho nesta quinta-feira (12) não anunciava uma emergência clínica, mas o cumprimento de uma promessa de vida. Entre o vaivém de foliões que já ensaiavam os primeiros passos de frevo e o brilho das penas sintéticas do gigante de 32 metros, uma ambulância vermelha e branca estacionou. Dentro dela, sobre uma maca, estava Jurandir Nóbrega. O homem que, desde 2019, é o braço direito, o suporte técnico e a marreta silenciosa por trás das mãos do filho, o multiartista Leopoldo Nóbrega.
Jurandir está internado há exatos trinta dias. O corpo pedia repouso, mas o espírito exigia o asfalto. Ele "aperreou" o hospital, como descreveu a filha e produtora executiva Germana Xavier, até que a equipe médica cedesse. O desejo era um só: ver o Galo de pé. O hospital esperou o momento exato de estabilidade clínica para permitir que o patriarca dos Nóbrega testemunhasse o triunfo do filho e de tantas mãos anônimas. Foi uma operação de guerra movida pelo afeto.
A logística da emoção na Duarte Coelho
A cena na ponte foi um balé de cuidado e urgência. A repórter Simone Santos e o repórter cinematográfico Marcondes Aguiar acompanharam o momento exato em que as portas traseiras do veículo foram abertas. O ar do Recife, carregado de expectativa, invadiu a unidade móvel. Quando a maca deslizou pelos trilhos metálicos, a emoção se impôs entre os familiares presentes. O burburinho da largada do Carnaval pareceu baixar o volume por alguns instantes.
A segurança era rigorosa. Máscaras no rosto, luvas e a orientação estrita de não tocar no paciente para evitar riscos virais ou bacterianos. Mas o olhar de Seu Jurandir estava livre de qualquer barreira. Ele tentou levantar o tronco, buscando o horizonte. Lá, imponente contra o céu azul (já escuro) do Recife, estava a escultura gigante que ele ajudou a planejar e executar. O Galo Folião Fraterno, que este ano traz uma mensagem de paz e harmonia, parecia curvar-se para saudar o seu mais antigo e leal colaborador.
"A minha realização foi essa", disse Jurandir, com a voz embargada pelo esforço e pela alegria profunda. "É muito emocionante. Ver isso aqui é tudo o que eu queria. É uma realização de vida". A frase, curta, carregava o peso de cinco anos de dedicação direta à imagem que define o Carnaval do Recife para o mundo.
Cordão de isolamento e afeto
Ao redor da ambulância e da maca, a família Nóbrega formava um cordão de isolamento feito de puro afeto. Rodrigo Xavier, um dos filhos, falava sobre o esforço hercúleo de manter a tradição viva enquanto o pai lutava pela saúde em um leito de hospital. Foram semanas de revezamento entre o canteiro de obras na ponte e as visitas rápidas na unidade de saúde para dar um "cheiro" no patriarca e contar como ia a evolução da obra.
Germana Xavier, reconhecida por sua parceria executiva com o irmão Leopoldo, observava a cena com a clareza de quem sabe o peso que Jurandir tem naquela engenharia de sonhos. Ele não é apenas um pai que visita o trabalho do filho; ele é a engrenagem técnica que faz o processo artesanal girar. A parceria com Leopoldo — renomado designer, cenógrafo e criativista — é de alma e de ofício. Juntos, eles transformaram o Galo em uma obra de arte sustentável e social.
Dona Maria do Carmo, artista plástica, professora aposentada e esposa de Jurandir, também estava lá. Com a sensibilidade de quem dedicou a vida à arte, ela descreveu o ritual da família: as noites em claro, a dedicação total e o pensamento constante em cada detalhe da escultura. Para ela, ver o marido realizar esse desejo era ver a própria arte da sobrevivência se manifestar em meio ao caos festivo do Recife. Ela lembrou que, em outros anos, a dedicação era tamanha que eles "viravam noites" no local.
O encontro entre o criador e seu suporte
Leopoldo Nóbrega chegou ao local sob forte carga emocional. O artista, que revolucionou o visual do Galo ao trazer conceitos de "upcycling" e artesania comunitária, transformou-se em filho diante da maca. O encontro entre os dois, sob a sombra da crista do gigante, parou o tempo na Duarte Coelho. Era o criador buscando a benção de quem sempre lhe deu o suporte estrutural.
"Papai faz parte desse projeto, ele é nossa inspiração", afirmou Leopoldo à nossa reportagem. "Todos os anos ele está aqui no Galo construindo, trabalhando artesanalmente. É uma pessoa que tem muito mais energia do que eu. Nesse momento ele está aqui olhando da distância, mas a gente está emanando essa energia para ele". Leopoldo revelou que, como reconhecimento, o pai receberia um certificado de homenagem. Mesmo sem poder subir na estrutura este ano, a presença de Jurandir estava impregnada em cada centímetro da escultura gigante.
A proteção necessária e a despedida
A estadia na ponte foi breve, cronometrada pelos profissionais de saúde que vigiavam cada sinal vital no monitor da ambulância. O ambiente de aglomeração trazia riscos inerentes. Quando foliões desavisados começaram a lançar jatos de espuma de Carnaval nas proximidades, a equipe médica agiu com presteza. Era preciso recolher Seu Jurandir para o ambiente controlado da unidade móvel.
Mas, antes que as portas se fechassem, houve tempo para os acenos finais, para ver a visível emoção da netinha única e para a troca de olhares que selava o compromisso de estarem juntos novamente no próximo ano, sem macas, fios ou sirenes.
O Galo da Madrugada, o maior bloco do mundo, é feito de números superlativos e gigantismo, mas sua sustentação real vem desses pequenos átomos de humanidade. Na tarde desta quinta-feira, a Ponte Duarte Coelho não foi apenas o palco de uma escultura de 32 metros. Foi o cenário de um abraço invisível entre um pai que se realizava na obra do filho e um filho que se sustentava na resiliência do pai.
A mensagem de esperança do Galo de 2026 saiu da teoria e ganhou o asfalto. Jurandir Nóbrega voltou para o hospital, mas deixou na ponte a prova de que a folia, antes de ser festa, é um ato de amor e resistência familiar. O coração de Jurandir, que os filhos disseram estar "palpitando forte", agora bate no mesmo ritmo do frevo da capital pernambucana. A missão estava cumprida. E até breve!
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