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ENTRE PRATELEIRAS

Justiça social não se resolve pela jornada

Por que a escala 6×1 virou o centro de um debate que não a explica

Jaques Paes | 09/02/2026, 08:39 h | Atualizado em 09/02/2026, 08:39
Entre Prateleiras

Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV


O debate saiu da mesa, foi para o palco e criou um símbolo que passou a ofuscar sua causa. A escala 6×1 tornou-se um objeto discursivo de um problema estrutural invisibilizado. Para grande parte da população, a vida tornou-se operacionalmente inviável: a renda não cresce, os preços sobem e a mobilidade social permanece estagnada.

Estamos diante de uma mudança que pode piorar exatamente a condição de quem se pretende proteger. Ao enquadrar o tema como uma escolha entre proteger o emprego ou melhorar a vida do trabalhador, constrói-se uma armadilha.

Há três discursos falando línguas diferentes. O moral, ancorado na desumanidade da escala, tem forte apelo emocional e baixa capacidade analítica. O econômico defensivo se apoia no risco de desemprego e fechamento de empresas; embora contenha elementos verdadeiros, é genérico e incompleto. O técnico-trabalhista se ancora na legalidade: se a lei permite, basta cumprir. É juridicamente correto, mas socialmente insuficiente.

O apelo não nasce do formato da jornada, mas da percepção de que trabalhar muito não garante dignidade, de que o tempo de vida foi colonizado pelo trabalho e de que o futuro se tornou curto demais. Quando o desenho institucional é ignorado, a análise cede lugar à torcida, e deixa-se de refletir sobre os critérios pelos quais julgamos se uma sociedade é, de fato, justa.

Esse enquadramento ganhou centralidade por traduzir, de forma simples e visceral, a exaustão, a falta de tempo e a ausência de perspectiva vividas por milhões de trabalhadores. A pauta é legítima. O desgaste é real. O problema surge quando essa centralidade passa a ocupar o espaço de questões mais profundas sobre o funcionamento da economia brasileira.

A escala 6×1 não cria a pobreza trabalhadora nem é, por si só, a origem das injustiças sociais. Ela opera dentro de um sistema que falha, há décadas, em transformar trabalho em renda suficiente, produtividade em salários e crescimento em mobilidade social. Trata-se mais de uma consequência do arranjo econômico do que de sua causa. Ao concentrar o debate nesse símbolo, desloca-se capital político para algo visível, enquanto os fatores estruturais permanecem intocados.

Sob a ótica da justiça social, não se trata de decidir sobre a aceitabilidade de um modelo de jornada, mas de observar se as mudanças propostas enfrentam as causas da desigualdade ou apenas reorganizam seus efeitos. Elevar esse tema à condição de eixo central sustenta uma falsa oposição entre emprego e dignidade.

A inconsistência persiste porque se tenta responder, com uma única régua trabalhista, a problemas econômicos, sociais, institucionais e simbólicos. Talvez por isso continuamos nos perguntando, sobre o porquê trabalhamos tanto para gerar tão pouca riqueza?

O Brasil não discute esse arranjo porque trabalha demais. Discute porque não consegue transformar trabalho em renda. A produtividade não resiste a sistemas que exigem esforço sem retorno; ela se sustenta quando o trabalho é convertido em valor, renda, tempo e perspectiva.

A discussão é legítima, mas tornou-se uma cortina de fumaça ao evitar o enfrentamento dos problemas estruturais que produzem pobreza. No fim, o que emerge é a crise de mobilidade social, a exaustão estrutural e a falência silenciosa de um país que sacrifica o futuro para proteger um passado que prometia um futuro melhor.

Continuo o assunto nas redes: Instagram: @jaquespaes; LinkedIn: in/jaquespaes

Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV

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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.