Melatonina para dormir não é inofensiva, dizem médicos
Especialistas alertam que uso indiscriminado da substância pode causar sonolência diurna, com prejuízo da atenção e da memória
Um estudo feito nos Estados Unidos investiga a relação do uso contínuo da melatonina com um maior risco de adultos com insônia crônica desenvolverem doenças cardiovasculares.
O trabalho foi apresentado nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração (AHA), em novembro de 2025, e analisou mais de 130 mil prontuários.
“Insuficiência cardíaca e a maior taxa de hospitalizações foram observadas, especialmente em pessoas que já apresentam insônia. Porém, é importante destacar que esses estudos não comprovam relação de causa e efeito, mas sinalizam a necessidade de cautela”, disse a neurologista Mariana Grenfell.
Se usada em altas doses ou de forma contínua, a melatonina pode causar efeitos colaterais ao corpo, como sonolência diurna persistente, com prejuízo da atenção, da memória e do rendimento cognitivo.
Disponível em comprimido, gota e até bala de goma, a melatonina tem ganhado cada vez mais espaço nas farmácias, graças à alta procura por soluções rápidas para dormir.
Apesar de classificada como suplemento alimentar pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a melatonina é um hormônio comercializado sinteticamente, e o uso de altas doses pode trazer malefícios.
“A melatonina não é um suplemento ou uma vitamina, é um hormônio produzido pelo corpo. A dose que produzimos durante a noite varia entre 0,3 miligramas (mg) e 1 mg, mas já vi casos de pessoas usando mais de 10mg para dormir. Isso pode acarretar sonolência durante o dia, desalinhar o seu ciclo de sono, e causar outros problemas”, alertou Roberta Couto, pneumologista e médica do sono.
Além dos efeitos colaterais, a melatonina não é recomendada para insônia crônica, afirma a neurologista Giuliana Macedo.
“Não há evidências científicas de que a melatonina melhora a insônia crônica. Esse hormônio é indicado, na verdade, para regular o ciclo circadiano, um sistema individual interno que regula o sono, alternando entre vigília e sono em resposta à luz e escuridão ambiental”.
A orientação médica para regular o sono é descobrir o cronotipo individual, explica o médico do sono Sérgio Barros. “Cada um tem o seu ritmo biológico individual, que dita os horários que a pessoa sente sono. Ela precisa conhecer o seu cronotipo para tratar a insônia”.
ENTENDA
Estudo aponta riscos
> 130 mil prontuários de pacientes foram analisados em um estudo apresentado nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração (AHA), nos Estados Unidos, em novembro de 2025.
> A análise comparou indivíduos que utilizaram melatonina por pelo menos um ano com um grupo que nunca usou.
> Adultos com insônia que usaram melatonina apresentaram cerca de 90% mais chance de desenvolver insuficiência cardíaca.
> A insuficiência cardíaca ocorre quando o coração não consegue bombear sangue rico em oxigênio suficiente para os órgãos do corpo.
Efeitos colaterais
> Se usada em altas doses ou de forma contínua, a melatonina pode causar efeitos colaterais ao corpo:
> Sonolência diurna persistente, com prejuízo da atenção, da memória e do rendimento cognitivo.
> Tontura, aumentando o risco de quedas, especialmente em idosos.
> Alterações do humor, como irritabilidade, apatia ou piora de sintomas depressivos.
> Interferência no eixo hormonal, uma vez que a melatonina já é produzida pelo corpo.
Suplemento ou hormônio?
Apesar de classificada como suplemento alimentar pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), especialistas destacam que a melatonina é um neuro-hormônio produzido naturalmente pelo corpo, e produzido de forma sintética em laboratórios para comercialização.
Casos indicados
> Alterações do ciclo circadiano, que regula o sono.
> Insônia gerada por jetlag (distúrbio temporário do sono) em viagens.
> Pessoa com autismo que desencadeia distúrbio do sono.
> Paciente com cegueira que não tem sinalização da luz do sol e trabalhador de turnos alternados.
Contraindicações
> A melatonina não é indicada para tratamento de insônia crônica.
> Especialistas apontam que não há evidências científicas de melhora nos sintomas do distúrbio com o uso do hormônio.
Como comprar
> Evitar adquirir a melatonina misturada com vitaminas ou estimulantes.
> Atenção ao rótulo do produto, que indica se a substância tem mistura ou não.
> Buscar farmácias de manipulação, para obter a melatonina com maior grau de pureza.
Fonte: Associação Americana do Coração (AHA) e especialistas entrevistados.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários