Surto do vírus Nipah na Índia pode chegar ao Brasil?
Nipah possui alta letalidade, mas transmissão exige contato direto, o que dificulta uma pandemia, afirmam especialistas
Cerca de 100 pessoas foram colocadas em quarentena na Índia por suspeita de contágio do vírus Nipah, que assola o país com um novo surto. O caso acontece no estado indiano de Bengala Ocidental, depois de dois profissionais de saúde contraírem o vírus e receberem tratamento, no início de janeiro.
Atualmente não há vacina, cura ou tratamento para o vírus Nipah, cuja taxa de letalidade é estimada entre 40% e 75%. Mas, afinal, esse surto que assola a Índia pode se espalhar e chegar ao Brasil?
Apesar de definida por autoridades indianas como uma infecção viral altamente fatal, o Ministério da Saúde ressaltou que “a perspectiva de uma disseminação global é baixa, e as nações asiáticas onde a doença costuma se manifestar possuem protocolos de emergência para controle de surtos”.
A forma de transmissão do vírus — associada principalmente a morcegos frutíferos, espécies que não existem no Brasil — é uma das razões que contribuem para as baixas chances de o surto chegar ao Brasil, explica a médica infectologista Rubia Miossi.
“O vírus Nipah é transmitido por contato com secreções do animal contaminado, como a urina e secreções respiratórias. Portanto, é pouco provável que chegue ao Brasil”.
A hipótese de que o vírus Nipah possa gerar outra pandemia também é improvável, afirma a médica infectologista Polyana Gitirana.
“Para que uma doença se disperse, ela precisa de um hospedeiro em boas condições de saúde que possa circular, viajar e disseminar o vírus na fase assintomática da doença. A covid-19 tinha uma taxa de letalidade de até 3%, diferente do vírus Nipah, com até 75% de mortalidade. Não é provável que a pessoa seja infectada e tenha condições de viajar e transmitir o vírus”, afirmou a médica.
Porém, em caso de evidência da presença do vírus no Brasil, caberão medidas de controle sanitário em aeroportos ou portos, porque os sintomas da doença evoluem muito rápido, explica a professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pesquisadora do Hospital Universitário Tânia Reuter.
“A infecção pode ser assintomática ou causar febre, dor de cabeça, tosse e vômitos. Os sintomas podem evoluir, entre 24 e 48 horas, para encefalite, convulsão e coma. Em caso de evidência no Brasil, caberão medidas como aferição de temperatura corporal”.
Saiba mais
Quando surgiu?
O primeiro surto de Nipah foi registrado em 1998, quando o vírus se espalhou entre criadores de porcos na Malásia.
O vírus recebeu o nome do vilarejo onde foi identificado pela primeira vez, no país do Sudeste Asiático.
Na Índia, os primeiros casos foram confirmados em 2001, também em Bengala Ocidental. Em 2018, um surto no estado de Kerala, no sul do país, resultou em 17 mortes.
A taxa de letalidade do vírus oscila entre 40% e 75%, de acordo com a literatura médica.
Como é transmitido?
Por meio de secreções de animais contaminados, como urina, saliva e secreções respiratórias.
Pelo contato com fluidos corporais de pessoas infectadas.
Através, também, de alimentos contaminados.
Os hospedeiros naturais são morcegos da família Pteropodidae, embora outros animais, como porcos e cavalos, também possam ser infectados.
Além do contato com animais infectados e seus fluidos, um dos principais riscos para a transmissão da doença para humanos se dá pelo consumo de frutas e sucos contaminados com urina ou saliva dos morcegos infectados, já que as espécies hospedeiras são frugívoras.
Quais os sintomas?
O Nipah pode causar desde infecções assintomáticas (subclínicas) até doenças respiratórias agudas e encefalite fatal.
Entre os principais sintomas estão febre, dor de cabeça, tosse, dor de garganta, dificuldade respiratória e vômitos. A infecção pode evoluir para encefalite (inflamação do tecido cerebral) com sonolência, confusão, convulsões e coma em um intervalo de 24 a 48 horas.
O vírus Nipah também pode causar doenças graves em animais, principalmente em porcos, que acabam morrendo após contrair a infecção viral.
Qual o tratamento?
Não existem, até o momento, vacinas, medicamentos ou tratamentos licenciados para a infecção pelo vírus Nipah.
Normas de higiene, como lavar as mãos, são essenciais. Outras medidas são evitar contato com morcegos ou porcos doentes e seus abrigos, e evitar seiva crua de frutas e vegetais potencialmente contaminados.
Fonte: Ministério da Saúde e especialistas entrevistadas.
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