Beiju do Sapê do Norte transforma tradição quilombola em patrimônio nacional
Dezenas de comunidades quilombolas transformam memória, trabalho e resistência em um capítulo escrito com dignidade e orgulho
A história não ficou presa ao passado, no território do Sapê do Norte, nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra. Dezenas de comunidades quilombolas transformam memória, trabalho e resistência em um capítulo escrito com dignidade e orgulho. Descendentes de muitos daqueles negros escravizados, que um dia foram vendidos como coisas no Porto de São Mateus, colocam a mão na massa para reescrever o destino. E essa nova história tem sabor de beiju!
Por gerações, a Casa de Farinha foi muito mais que o lugar onde se processava a mandioca para fazer farinha e alimentos como o beiju, fonte de sobrevivência e de renda para as comunidades quilombolas. Nesses locais, foram, e ainda são, compartilhados saberes e experiências de vida.
Andreia Costa, da comunidade quilombola de Santa Luzia, em São Mateus, cresceu vendo o movimento das peneiras e sentindo o calor do tacho.
“Desde que me entendo por gente, eu faço beiju. Aprendi com minha mãe, que aprendeu com minha avó, que aprendeu com a mãe dela… Tem uma história de um senhor que me via pequena na rede e dizia que, quando eu crescesse, ia falar que fui criada pela rede, porque era ali que eu ficava, na Casa de Farinha, enquanto minha mãe fazia beiju.”
Hoje a iguaria não é só sinônimo de subsistência. É o resgate da cultura quilombola e o reconhecimento do valor que existe nela. O beiju do Sapê do Norte, feito artesanalmente com massa de mandioca e recheio de coco ou amendoim, conquistou, em 2024, o primeiro selo de Indicação Geográfica (IG) do Brasil para um território quilombola, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com apoio do Sebrae/ES.
A IG abrange mais de 30 comunidades e valoriza a exclusividade, o sabor e a tradição passada de geração em geração.
“O nosso beiju, a merenda que sustentou meus antepassados, agora é patrimônio cultural. Os olhares se voltam para nós, e temos oportunidades que nunca tivemos. A Andreia criada pela rede, na Casa de Farinha, nem sonhava com isso!”, diz.
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