Vereador recém-empossado chama público nas galerias da Câmara de "mundiça"
George Bastos (Novo) confirmou áudio vazado pelo líder do governo; parlamentar ainda afirmou que populares na galeria são "dependentes do poder públic
O primeiro dia do vereador George Bastos (Novo) como suplente na Câmara do Recife foi marcado pelo vazamento de um áudio em que ele se refere aos cidadãos que acompanham as sessões como “mundiça”.
A gravação foi revelada pelo líder do governo, Samuel Salazar (MDB), nesta terça-feira (3), durante a votação do pedido de impeachment do prefeito João Campos (PSB). O pedido acabou rejeitado por 25 votos a 9 e uma abstenção.
No áudio reproduzido no microfone da tribuna, Bastos detalhava uma estratégia para ocupar as cadeiras da galeria antes de outros grupos: "A gente quer chegar muito cedo, antes daquela mundiça". Segundo Salazar, ele se referiu ao povo do Recife que queria participar da sessão. Houve fila, inclusive, para entrar na Câmara. Muita gente ficou do lado de fora.
A fala gerou reação imediata. A vereadora Jô Cavalcanti (PSOL) e o vereador Rodrigo Coutinho (Republicanos) repudiaram as declarações. Antes, o vereador Daniel Salazar tinha destacado que o cargo exige "amor ao povo do Recife" e que os cidadãos merecem respeito.
Ao justificar o voto “sim” a favor do impeachment, que foi derrotado, Bastos não negou a fala. Pelo contrário, rebateu as críticas afirmando que o público presente nas galerias seria "dependente" e "obediente" a uma oligarquia. "Todo mundo tem uma boca para se alimentar e, no final das contas, talvez a política seja uma forma de garantir o sustento dentro de casa", declarou o suplente.
“O vereador de um dia só… foi muito grave chamar o povo do Recife de mundiça. Esse é o Partido Novo, que vem tentando descredibilizar a gestão de João Campos”, disse Rinaldo Júnior (PSB).
O vereador Eriberto Rafael (PSB) também criticou os vereadores bolsonaristas, que não se posicionaram contra a fala do vereador George Bastos.
A democracia
O acesso da população às galerias para acompanhar votações é um direito garantido pela Constituição Federal e pelo princípio da publicidade dos atos legislativos, sendo a Câmara a "Casa de José Mariano", um espaço público por natureza.
Eduardo Moura voltou a usar a tribuna para chamar as pessoas da galeria de “babões”. Para o vereador Thiago Medina (PL), o lado da galeria contra João Campos veio de "boa vontade", enquanto o outro lado era de "cargos comissionados que seriam demitidos por faltar ao trabalho", como se o gestor não tivesse aliados voluntários.
Primeiro dia com pé na porta
George Bastos assumiu a cadeira de vereador como primeiro suplente do partido Novo, após o titular, Eduardo Moura, solicitar licença do mandato. A troca ocorreu momentos antes da votação para que Moura, autor do pedido de impeachment, pudesse atuar como denunciante enquanto seu substituto ocupava o voto e a tribuna. Seria uma estratégia para garantir que o partido mantivesse a voz ativa e o voto no plenário durante o processo.
Impeachment rejeitado
O pano de fundo do conflito foi o requerimento de impeachment contra João Campos, apresentado originalmente por Eduardo Moura (Novo), que se licenciou para a entrada de Bastos.
A oposição acusava o prefeito de crime de responsabilidade na nomeação do advogado Lucas Vieira Silva para uma vaga de procurador destinada a Pessoas com Deficiência (PCD). Lucas, filho de uma procuradora do Ministério Público de Contas e de um juiz, havia focado no 63º lugar no concurso de 2022 em ampla concorrência, mas apresentou laudo de autismo em 2025 para assumir a vaga PCD.
A defesa do governo apresentou uma cronologia dos fatos, alegando que o prefeito assinou a portaria baseada em um parecer jurídico e na existência de um laudo validado pela Justiça do Trabalho.
Samuel Salazar reforçou que a nomeação foi anulada administrativamente antes de qualquer pagamento ser efetuado, o que, segundo o placar de 25 a 9, convenceu a maioria dos vereadores de que não houve crime de improbidade. Uma abstenção foi registrada pela vereadora Flávia de Nadegi (PV).
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