Putin envia premiê e ministros ao Brasil para reunião suspensa desde a guerra na Ucrânia
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, envia nesta semana ao Brasil uma equipe de alto nível político composta pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, e oito ministros. Eles participarão de uma reunião de coordenação entre os governos que deveria ter sido realizada em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, mas foi suspensa ainda no governo Jair Bolsonaro e vinha sendo adiada desde então.
A 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação (CAN) vai ocorrer em Brasília, na quinta-feira, dia 5. A comissão é copresidida pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin, e pelo primeiro-ministro, Mikhail Mishustin. Ambos vão coordenar as discussões bilaterais ampliadas.
O governo russo também informou que o emissário de Putin será recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília.
A CAN é uma forma de diálogo estruturado entre os governos, envolvendo diferentes ministérios e interesses dos dois países, com reuniões que deveriam ocorrer periodicamente. O Brasil possui mecanismos semelhantes na diplomacia vice-presidencial, por exemplo, com a China e com a Nigéria.
O Brasil deveria receber a atual reunião ainda em 2022, mas o encontro foi adiado após o início da guerra na Ucrânia, prestes a completar quatro anos em 24 de fevereiro.
Desde então, havia anualmente conversas políticas e diplomáticas, em nível de ministros, a favor de uma reativação do mecanismo, que enfrentava resistências e sensibilidades políticas internas no governo, inclusive pela exposição política, por causa da aproximação com a Rússia, e a realização somente se destravou agora.
Ao longo do conflito, o governo Lula foi diversas vezes criticado, principalmente no Ocidente, por causa de declarações e posturas lidas como mais simpáticas aos argumentos russos e a Putin. Houve estremecimento com Kiev, embora o petista tenha defendido o envolvimento do Brasil na busca de um acordo de paz.
Lula voltou a se colocar como um potencial mediador no ano passado, e chegou a lançar uma proposta com princípios para abrir uma negociação de paz, ao lado da China, e formou um grupo de países do Sul Global, sob críticas da Ucrânia.
As negociações de paz somente foram impulsionadas com o envolvimento direto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, principal apoiador bélico da Ucrânia, ao lado dos países europeus. Uma segunda rodada deve ocorrer no fim desta semana, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
O petista nunca aceitou viajar a Kiev, mas no ano passado esteve em Moscou, quando deu novo impulso à relação pessoal e política com Putin e tentou sensibilizá-lo a se engajar em conversas de paz, sem sucesso. Ele atendeu a um pedido dos ucranianos, como revelou o Estadão. Ele depois conversaria mais vezes à distância com Putin, e, pessoalmente, com o presidente ucraniano Volodmir Zelenski, nos Estados Unidos.
Criada em 1997, a comissão voltará a se reunir após um hiato de mais de 10 anos. A última edição foi realizada em Moscou, em setembro de 2015 - o Brasil foi representado ainda pelo então vice-presidente Michel Temer.
Há um ano, o governo enviou a secretária-geral das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, a Moscou para reuniões preparatórias, acompanhada de secretários dos ministérios da Agricultura e da Ciência, Tecnologia e Inovação. Foi realizada na ocasião a 12ª reunião da Comissão Intergovernamental Brasil-Rússia de Cooperação Econômica, Científica e Tecnológica (CIC).
O Itamaraty informou que são esperados oito ministros russos, na comitiva despachada por Moscou, além de três vice-ministros e dirigentes de agências estatais.
Na tarde de quinta-feira, Alckmin e Mishustin participarão do Fórum Empresarial Rússia-Brasil. Os dois vão discursar a uma plateia de empresários russos e brasileiros. O evento será promovido por meio dos conselhos empresariais Rússia-Brasil e Brasil-Rússia.
Segundo a diplomacia russa, "serão discutidos temas atuais da cooperação russo-brasileira nas áreas comercial, econômica, científica, técnica, cultural e humanitária" e "será dada especial atenção à promoção de projetos conjuntos nos setores de energia, indústria, agricultura e outras áreas".
O Itamaraty disse que um dos principais objetivos da retomada da CAN é fortalecer o comércio, dinamizar os intercâmbio e diversificar produtos. "Serão discutidos igualmente temas afetos à cooperação em energia, agricultura, ciência, tecnologia e inovação, cultura, entre outros setores", informou a chancelaria brasileira.
Conforme dados do governo brasileiro, em 2025, o comércio bilateral alcançou a cifra de US$ 10,9 bilhões. O Brasil tem déficit. As exportações brasileiras à Rússia somaram US$ 1,5 bilhão, e as importações russas para o País, US$ 9,4 bilhões.
Em 2023, após duas décadas de parceria estratégica, o comércio bilateral rompeu pela primeira vez a casa de US$ 10 bilhões. Naquele ano, foram US$ 11,3 bilhões em total, e, em 2024, US$ 12,4 bilhões.
O Brasil importa principalmente óleo diesel e fertilizantes e exporta, sobretudo, carne bovina, soja e café.
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