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Ondas de calor: um chamado urgente à saúde pública

Calor extremo deixa de ser exceção, preocupa médicos e reforça a urgência de políticas públicas para proteger a saúde da população

KITIA PERCIANO | 02/02/2026, 12:45 h | Atualizado em 02/02/2026, 12:45
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Leitores do Jornal A Tribuna



          Imagem ilustrativa da imagem Ondas de calor: um chamado urgente à saúde pública
Kitia Perciano é oncologista clínica |  Foto: Divulgação

Vitória e outras cidades do Brasil estão vivendo um janeiro de 2026 com temperaturas que parecem subir a cada dia. As ondas de calor intenso deixaram de ser um evento isolado para se tornarem uma realidade frequente, com impactos diretos e preocupantes na saúde da nossa população.

Do ponto de vista médico, esse cenário exige um olhar atento, especialmente com nossas crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e todos que trabalham sob o sol forte.

O calor excessivo sobrecarrega o corpo de maneiras que nem sempre percebemos. A desidratação é um dos primeiros e mais comuns riscos, podendo causar tonturas, queda de pressão, confusão mental e, em casos mais graves, evoluir para insuficiência renal e insolação, uma emergência que pode ser fatal.

As orientações básicas fazem uma enorme diferença: beber água constantemente, evitar a exposição ao sol nos horários de pico; usar roupas leves e não se esquecer do protetor solar. Contudo, não podemos colocar essa responsabilidade apenas no colo do indivíduo. Enfrentar o calor extremo precisa ser, antes de tudo, uma questão de saúde pública.

É fundamental e urgente que o poder público amplie o debate sobre políticas de adaptação às mudanças climáticas. Uma medida tão simples quanto eficaz seria a instalação de bebedouros com água potável em espaços de grande circulação, como praças, praias e parques. Água não é um luxo, é um direito básico e uma ferramenta essencial de prevenção.

Somado a isso, precisamos encarar a barreira financeira que impede a prevenção. No Brasil, o protetor solar ainda é tributado como cosmético, carregando o peso de impostos como IPI e ICMS, o que o torna um item caro para grande parte das famílias. É urgente avançarmos na legislação para classificá-lo como um “bem essencial”. Podemos olhar para o exemplo da Austrália, país que também enfrenta radiação solar extrema, onde o governo implementou políticas para tornar o protetor solar extremamente barato e acessível, tratando-o como uma ferramenta de saúde pública para prevenir o câncer de pele e as queimaduras térmicas.

Outro ponto que me toca profundamente diz respeito aos nossos ambientes de ensino. Escolas sem climatização adequada transformam o aprendizado em um desafio insalubre. Nossos alunos e professores ficam expostos a um calor que compromete não apenas a saúde física, mas também a concentração e o bem-estar.

O calor, infelizmente, também aprofunda as nossas desigualdades. Enquanto alguns podem se proteger em ambientes climatizados, a população mais vulnerável sofre de forma desproporcional. Por isso, discutir o calor é também discutir justiça social, planejamento urbano e a responsabilidade do Estado com cada cidadão.

Como médica, vejo claramente que é impossível dissociar o cuidado individual do bem-estar coletivo. Prevenir as doenças relacionadas ao calor passa, necessariamente, por ações estruturais e políticas públicas eficazes. Precisamos tirar o enfrentamento das altas temperaturas do campo do improviso e colocá-lo, de uma vez por todas, no centro da agenda de saúde pública do Espírito Santo.

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