O passivo invisível da cadeia alimentar
O risco que voltou à mesa
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
De forma quase imperceptível, estamos sendo incorporados a uma reorganização estrutural que ocorre fora das pautas usuais da sustentabilidade. Ela já chegou à nossa mesa, em sentido simbólico e literal.
Durante anos, cadeias produtivas se expandiram sob a lógica de eficiência, custo e escala. Hoje, decisões passam a ser organizadas por risco, controle e governança. Processos críticos se aproximam dos centros de decisão, fornecedores se regionalizam e insumos antes diluídos em cadeias longas voltam a se tornar visíveis.
Esse movimento traz à superfície passivos que permaneceram latentes por décadas, especialmente na cadeia alimentar. Materiais, processos e substâncias que circulavam sem rastreabilidade efetiva passam a integrar as decisões estratégicas. O que era difuso se torna identificável.
Responsabilidades antes diluídas em múltiplos elos tornam-se visíveis e mensuráveis. A opacidade que protegia processos começa a se desfazer. Insumos que atravessavam países, fornecedores e sistemas com baixa rastreabilidade deixam de operar como detalhe técnico e passam a emergir como variáveis estratégicas de decisão.
O debate chega junto com os alimentos. Estudos científicos, análises regulatórias e estruturas de avaliação de risco evidenciam a presença de químicos industriais no sistema alimentar e o custo econômico dessa exposição. Não é um fenômeno novo. O caso do teflon já havia mostrado como substâncias incorporadas ao cotidiano por décadas podem, depois, revelar passivos sanitários, jurídicos e econômicos. Hoje, o mesmo padrão reaparece em escala sistêmica, atravessando embalagens, processos e cadeias produtivas.
A alimentação passa a funcionar como ponto de convergência desses riscos. Onde cadeias produtivas, processos industriais, insumos químicos e decisões logísticas se encontram no cotidiano. O risco passa a operar como exposição contínua, com implicações diretas para saúde pública, sistemas de proteção social, políticas regulatórias e estrutura econômica.
A lógica deixa de ser simbólica e se torna econômica e de saúde pública. O acúmulo transforma-se em passivo distribuído por sistemas de água, infraestrutura, regulação, financiamento e governança.
No Brasil, o tema não é periférico. A cadeia alimentar é altamente industrializada, dependente de processos químicos e insumos complexos. Ao mesmo tempo, empresas operam em mercados que já exigem controle, rastreabilidade e conformidade técnica. Mesmo onde a regulação local é frágil, o mercado comprador impõe regras.
O sistema jurídico já opera com responsabilização solidária. O sistema financeiro precifica risco químico. Seguradoras ajustam prêmios. Estruturas de crédito avaliam exposição. Investidores incorporam desconto de valor. O processo é silencioso, fragmentado e cumulativo.
No fim, não se trata de escolha individual de consumo, mas da forma como sistemas produtivos incorporam riscos que só aparecem depois, quando já se transformaram em custo estrutural e perda de valor.
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Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.