Projeto do Cais das Artes foi fiel ao traço e ao legado idealizado por arquiteto
Obra foi fiel ao projeto elaborado pelo premiado arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha, que morreu em 2021
O Cais das Artes chega à reta final como um raro exercício de fidelidade arquitetônica. A equipe responsável pela obra celebra com orgulho a manutenção da concepção original do arquiteto Paulo Mendes da Rocha.
Colecionador de prêmios por todo o mundo, o capixaba Paulo Mendes da Rocha foi o idealizador da obra na Enseada do Suá, em Vitória, que se somará ao legado deixado por ele. O arquiteto morreu em 2021.
A arquiteta Thereza Christina Machado atua e acompanha a obra desde 2010, quando Paulo Mendes da Rocha ainda era vivo.
“Tive o privilégio de acompanhar o Paulo em algumas visitas à obra. Ele demonstrava imenso orgulho pelo projeto, que definia como um verdadeiro patrimônio para o povo capixaba. Participava ativamente de cada decisão técnica.”
Entre os maiores desafios, ela destaca a exclusividade dos materiais. “Nada foi comprado pronto. Desde as luminárias até os acabamentos, tudo foi fabricado sob medida para atender às especificações rigorosas do Cais”.
Além disso, a complexidade logística exigiu esforço máximo das equipes, com a montagem de placas de concreto de cinco toneladas na fachada e a instalação de vidros de 300 kg em planos inclinados.
O diretor de Engenharia do consórcio liderado pela empresa Andrade Valladares, Marco Fúccio, destacou que foram necessárias poucas adaptações ao projeto original.
“Por ser um projeto de 17 anos, algumas atualizações tecnológicas foram necessárias. Um exemplo é a iluminação, já que o sistema fluorescente original foi totalmente substituído pela tecnologia LED.”
Ele ressaltou, ainda, que todas as atualizações contaram com o aval da equipe envolvida na concepção do projeto original. Um deles é o arquiteto da Metro Arquitetos Associados, Martin Corullon — coautor do projeto e detentor dos direitos autorais da obra cedidos pela família do Paulo.
Ele esteve presente no evento de estreia da temporada de abertura do Cais. “É uma satisfação ver que o projeto foi mantido o mais próximo do original. Participei de todo o processo de criação, desde o primeiro rabisco, em 2007, e acompanhei todas as etapas. Está incrível”, disse.
Martin ainda revelou a alegria em estar presente no primeiro show. “É impressionante poder sentir que o espaço vai permitir diferentes tipos de apropriações. Quando vemos pessoas usando, conseguimos entender o que é de verdade o equipamento. A monumentalidade fica secundária. Ele ganha vida”.
“Meu pai estaria muito feliz”
Colecionador dos mais importantes prêmios da arquitetura mundial, o capixaba Paulo Mendes da Rocha — que morreu em 2021, aos 92 anos — deixou no Cais das Artes uma de suas obras mais simbólicas.
Para a cineasta Joana Mendes da Rocha, filha do arquiteto, a conclusão do projeto carrega um significado especial — pessoal e histórico.
“É uma obra muito importante para o meu pai, por ser em Vitória, onde ele nasceu. Ele queria muito que esse projeto saísse do papel e acontecesse”, contou Joana.
Segundo ela, embora Paulo Mendes da Rocha não tenha vivido para ver o Cais das Artes concluído, havia um orgulho silencioso no projeto, especialmente pelo vínculo com a cidade.
“Não sei se orgulhoso é a palavra, mas acho que ele ficaria muito feliz. Feliz por ser mais uma obra concluída e, principalmente, por ser na cidade dele”, diz.
Projetado às margens do mar, o Cais das Artes sintetiza uma das marcas mais fortes da arquitetura de Paulo Mendes da Rocha: o diálogo entre estrutura, engenharia e paisagem.
Joana lembra que o desafio técnico da construção sobre a água sempre encantou o pai. “Essa coisa de construir no mar, pensar a engenharia, a técnica da obra apoiada na água, fascinava muito ele”.
Apesar da longa espera até a finalização da obra — o projeto arquitetônico foi desenvolvido entre 2007 e 2008 —, Joana destaca que o projeto foi executado conforme o pensamento original do arquiteto. “É bonito ver que ficou pronto do jeito como ele pensou, na terra onde ele nasceu”, afirma.
O sentimento é compartilhado por Martin Corullon, sócio de Paulo Mendes da Rocha no escritório Metro Arquitetos, responsável pelo desenvolvimento do projeto, que, segundo ela, acompanha com emoção a conclusão do complexo.
Em uma leitura quase poética, Joana define o Cais das Artes como um fechamento de ciclo na trajetória do pai. “Ele nasceu em Vitória e, de certa forma, a última grande obra dele é na cidade onde começou a vida. O começo e o fim no mesmo lugar”.
Opinião
Obra de arte
“Uma obra da magnitude do Cais é, literalmente, uma obra de arte a céu aberto. É compreensível que algumas pessoas não se identifiquem com a estética escolhida, mas é consenso o seu caráter de marco na cidade.
A caixa de concreto, que para muitos não dialoga com o entorno, é justamente o elemento que valoriza as grandes obras ao redor. Ao chegar à praça central, a edificação emoldura o Convento da Penha. Ao entrar no museu, o olhar é conduzido pelas aberturas estreitas, que despertam curiosidade e convidam à aproximação, ao mesmo tempo em que preservam a atenção para aquilo que será exposto.”
Luiza Brunelli Coura, arquiteta e urbanista e conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-ES)
Exposição de Sebastião Salgado abre museu do Cais
Com obras do edifício praticamente finalizadas, a inauguração do museu que faz parte do complexo do Cais das Artes, na Enseada do Suá, em Vitória, está prevista para acontecer em abril, com a exposição “Amazônia”, do fotógrafo Sebastião Salgado.
Um dos nomes mais importantes da fotografia mundial, Sebastião Salgado morreu no ano passado, aos 81 anos, e passou parte da sua vida em Vitória.
O governador Renato Casagrande afirmou que com as obras do museu prontas, a gestão do Cais das Artes — parceria da Secretaria Estadual da Cultura (Secult) com a Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI) — passa a organizar e preparar o espaço para receber as peças.
Parte das obras que estarão na mostra estão expostas no Museu das Amazônias, em Belém, Pará. Além das obras que estão em Belém, outras peças também estão expostas fora do País e virão para o Estado.
A escolha de “Amazônia” como exposição inaugural confere ao Museu do Cais das Artes um forte simbolismo ambiental, artístico e político, alinhado aos debates contemporâneos sobre sustentabilidade e preservação.
A mostra “Amazônia” é o resultado da imersão, por sete anos, de Sebastião e Lélia Wanick Salgado, na região que cobre o Norte do Brasil e se estende a mais oito países sul-americanos, ocupando um terço do continente; e 60% da Amazônia estão no Brasil.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários