Esqueça o Rolex e a BMW: a experiência é o novo luxo
A saturação do luxo tradicional e a ascensão das experiências como novo símbolo de status
Leitores do Jornal A Tribuna
Durante décadas, o marketing se apoiou em um princípio simples: possuir equivalia a vencer. Um Rolex no pulso, uma BMW na garagem ou uma bolsa Louis Vuitton no braço funcionavam como sinais universais de sucesso. Eram códigos visuais diretos, capazes de comunicar status e poder apenas pela exibição. Bastava mostrar. Esse modelo, que sustentou o mercado de luxo por muito tempo, começa a perder eficiência.
Análises recentes da The Economist apontam um ajuste no mercado global de bens de luxo após o crescimento acelerado do período pós-pandemia. Relatórios da Knight Frank indicam que a desaceleração observada a partir de 2023 resulta do fim do impulso excepcional daquele momento e do ambiente global de juros mais altos, que reduziu a atratividade de ativos alternativos. Mais do que isso, pesaram fatores estruturais.
Algumas categorias passaram por saturação evidente, especialmente relógios e determinados nichos do mercado de arte, após anos de valorização acelerada e ampliação excessiva da oferta. Ao mesmo tempo, consumidores de alta renda passaram a direcionar mais recursos para experiências, viagens e hospitalidade de alto padrão, reduzindo o interesse pela acumulação de bens físicos como forma de distinção. Soma-se a isso uma postura mais seletiva: ativos realmente raros preservaram valor, enquanto itens previsíveis, amplamente expostos ou tratados como investimento de massa perderam apelo. Em síntese, o que mudou foi a forma como o dinheiro comunica posição social.
O desgaste do luxo tradicional não está ligado à perda de qualidade ou tradição das grandes marcas. Rolex, BMW e Louis Vuitton seguem como referências. O ponto central é a saturação. A escalada contínua de preços, muitas vezes sem inovação proporcional, somada à ampliação da oferta, diluiu o efeito de distinção. Quando o objeto se espalha, sua capacidade de diferenciar se reduz. Paralelamente, a demonstração de prestígio deslocou-se para outro território.
Cada vez mais, comunicar poder passa menos pela posse e mais pela vivência. Assistir à final de uma Copa do Mundo em condições privilegiadas, hospedar-se em hotéis históricos, esquiar em resorts ultra seletivos ou acessar eventos culturais e esportivos restritos transmite uma mensagem mais forte do que acumular bens. Não se trata apenas de preço, mas de singularidade. São experiências que não se repetem nem se tornam comuns.
Esse movimento ajuda a explicar por que as redes sociais deixaram de ser apenas vitrines de consumo e passaram a registrar trajetórias pessoais. Mostra-se menos o que se compra e mais o que se vive. O valor está na história que pode ser contada.
Para empresas, marcas e tomadores de decisão, o impacto é direto. Estratégias centradas apenas no produto tendem a perder força. Ganham espaço iniciativas capazes de criar vivência, pertencimento e repercussão espontânea. Eventos, ativações e experiências ocupam o centro das decisões de comunicação.
Insistir apenas na lógica da posse é apostar em um modelo de distinção que já não produz o mesmo efeito.
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Tribuna Livre,por Leitores do Jornal A Tribuna