Após liquidação, funcionários do Will Bank aguardam salário e rescisão
Devido a incerteza sobre quando os contratos com o banco serão encerrados, funcionários não conseguem definir data de início em outros empregos
Uma semana após a liquidação do Will Bank, mais de 1.000 funcionários ainda vivem um cenário de incerteza sobre salários, benefícios e verbas rescisórias. Ex-funcionários ouvidos pela Folha dizem que, sem cronograma oficial, não sabem se receberão vale-refeição e vale-alimentação, previstos para esta semana, nem o salário de fevereiro.
Parte deles já está em processos seletivos ou recebeu novas propostas de trabalho, mas não consegue informar uma data mínima de início por não saber quando os contratos atuais serão encerrados. Procurado, o banco não se posicionou sobre o assunto.
Um gerente da empresa disse à reportagem que, ao longo desta semana, chegou a emprestar dinheiro para integrantes de sua equipe que tinham recursos depositados no próprio Will e ficaram sem acesso aos valores após a liquidação. Também há casos de trabalhadores em licença-maternidade que não sabem se poderão manter o plano de saúde ou como ficarão seus pagamentos.
Desde o anúncio da liquidação, além da preocupação financeira imediata, funcionários passaram a usar redes sociais e grupos internos para lamentar o fim da financeira, descrita por muitos como um ambiente de aprendizado e de boas relações entre colegas. Em mensagens públicas, trabalhadores dizem que o Will tinha uma cultura forte e equipes engajadas, o que tornou o choque da liquidação ainda maior.
De acordo com funcionários ouvidos pela reportagem, apesar da liquidação do Banco Master, que controlava o Will, o clima interno até então era de otimismo em relação a uma possível venda da operação da financeira. A expectativa era de continuidade dos empregos ou de uma transição mais organizada. Eles dizem que a decisão do Banco Central pegou a maioria de surpresa.
"A gente ficava trabalhando em planos de retomada, o que não era muito coerente. Ao mesmo tempo que diziam que tudo ia melhorar, aparecia do nada o pedido por alguma ação emergencial para trazer dinheiro", diz Leonardo Santos, ex-analista de marketing de produto do banco. Ele foi demitido no dia 9 de janeiro, antes da liquidação, e trabalhou por dois anos na empresa.
Na quarta-feira, uma planilha de profissionais impactados pela liquidação do banco foi criada e soma mais de 900 nomes, com cargos e perfil no LinkedIn. O documento tanto os profissionais que já foram demitidos quanto os que temem ser desligados.
Desde a quarta-feira da liquidação, a maior parte dos funcionários teve seus acessos às ferramentas de trabalho cortados e estão parados, sem qualquer canal formal de comunicação com a empresa. Com esse cenário, eles relatam que a comunicação tem ocorrido por meio de grupos de WhatsApp.
Um dos funcionários ouvidos pela reportagem afirma não ter reserva financeira e conta que assumiu recentemente um financiamento, além de ter passado por problemas de saúde, o que torna a incerteza sobre o emprego e os próximos salários ainda mais delicada.
Criado em 2017 e comprado pelo Master em 2024, o Will Bank tinha a proposta de ampliar a inclusão financeira, oferecendo produtos como cartão de crédito sem anuidade a clientes que pudessem não se encaixar no sistema bancário tradicional.
Com operações digitais e marketing forte na TV e redes sociais, sua atuação ganhou tração no Nordeste. No ano passado, o banco digital chegou a 9 milhões de clientes. A sua liquidação foi decretada nesta quarta, mas a instituição estava, desde novembro, sob regime de administração especial temporária.
A liquidação é adotada quando o BC avalia que a situação da instituição financeira é irrecuperável. Nesse caso, o funcionamento da instituição é interrompido e ela é retirada do sistema financeiro nacional.
Segundo o BC, não foi possível encontrar uma solução para o banco após o Will deixar de pagar aos participantes da cadeia de cartões de crédito, incluindo a bandeira Mastercard.
De acordo com dados do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), a decretação da liquidação do banco deve fazer a instituição reembolsar R$ 6,3 bilhões aos clientes do banco.
O QUE ACONTECE COM OS FUNCIONÁRIOS DO BANCO?
Em casos de liquidação extrajudicial de instituições financeiras, os créditos trabalhistas ocupam posição privilegiada e de observância obrigatória na ordem de pagamento, por terem natureza alimentar, segundo a advogada trabalhista Elisa Alonso, sócia do RCA Advogados.
Segundo ela, a legislação brasileira reconhece que salários, verbas rescisórias, férias e 13º salário são essenciais à subsistência dos trabalhadores e, por isso, devem ser pagos com prioridade em relação à maioria dos demais credores, como fornecedores, prestadores de serviços e credores quirografários.
Em nota, o Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região informou que iniciou um monitoramento intensivo para garantir que nenhum direito dos trabalhadores do Will Bank seja desrespeitado.
De acordo com o sindicato, logo após o anúncio da liquidação, trabalhadores relataram a perda imediata de acesso aos sistemas internos. A entidade afirma que já busca contato com a equipe do liquidante nomeada pelo Banco Central.
"O objetivo é assegurar que o processo de encerramento não resulte em penalizações aos bancários e que todas as verbas rescisórias e os direitos previstos na convenção coletiva de trabalho sejam respeitados", diz o sindicato.
Tire suas dúvidas sobre os direitos trabalhistas dos funcionários do Will Bank
O QUE ACONTECE COM OS CONTRATOS DE TRABALHO DOS FUNCIONÁRIOS?
A decretação da liquidação extrajudicial não implica a rescisão automática dos contratos de trabalho em vigor. De acordo com a advogada trabalhista Lorena Paiva, do Ferraz dos Passos Advocacia e Consultoria, é necessário que a rescisão seja formalizada, na modalidade de demissão sem justa causa.
"Excepcionalmente, o liquidante nomeado pelo Banco Central pode manter alguns funcionários em regime temporário, para auxiliar no fechamento da empresa", afirma.
EM CASO DE DEMISSÃO, QUAIS SÃO OS DIREITOS DOS FUNCIONÁRIOS?
Segundo Lorena, os funcionários demitidos terão direito a todas as verbas rescisórias previstas para a demissão sem justa causa. Assim, as demissões na instituição financeira liquidada devem ocorrer normalmente, com respeito à legislação trabalhista e das normas da categoria profissional.
"Nesse ponto, ressalta-se que os instrumentos coletivos regularmente firmados pela categoria devem ser respeitados no momento da rescisão", diz a advogada.
QUANDO AS VERBAS TRABALHISTAS SERÃO PAGAS?
Segundo a advogada, os trabalhadores devem aguardar o andamento da liquidação extrajudicial para o recebimento das verbas rescisórias, não havendo prazo definido em lei para esse pagamento.
Ela explica que, embora os créditos trabalhistas tenham preferência legal na ordem de recebimento, o processo administrativo de liquidação exige o cumprimento de etapas formais, como verificação dos créditos, habilitação dos credores e a efetiva disponibilidade de ativos para pagamento.
"A título de complementação, a Lei 6.024/1974, que rege as liquidações extrajudiciais, estabelece, em seu artigo 4º, que o prazo para a intervenção é de seis meses, prorrogáveis por igual período", afirma. Após a conclusão dessas etapas, a regra de prioridade dos créditos trabalhistas deve ser seguida.
OS FUNCIONÁRIOS DEMITIDOS ENTRAM AUTOMATICAMENTE NA LISTA DE CREDORES?
Elisa Alonso diz que, em regra, os empregados dispensados precisam se habilitar formalmente como credores, apresentando documentação que comprove o vínculo e os valores devidos, dentro dos prazos estabelecidos pelo liquidante. Ela diz que esse procedimento é feito no próprio processo de liquidação, sem necessidade imediata de ação judicial, desde que não haja controvérsia sobre os valores.
"Havendo divergência quanto às verbas ou valores devidos, o trabalhador deverá recorrer à Justiça do Trabalho. Uma vez definido o valor efetivamente devido, a decisão judicial deverá ser apresentada no processo de liquidação para respectiva habilitação", afirma a especialista.
O QUE O TRABALHADOR DEVE FAZER AGORA? JÁ É RECOMENDADO TOMAR ALGUMA PROVIDÊNCIA JURÍDICA?
De acordo com Lorena Paiva, neste momento é recomendável que o trabalhador procure o sindicato da categoria ou um advogado, para avaliar as particularidades do seu caso, que podem ser diferentes das dos demais empregados.
Além disso, ela orienta que o trabalhador preserve as provas do vínculo empregatício e das condições específicas da prestação de serviços à instituição. Esses materiais podem ser importantes caso o empregado precise entrar com processo para solicitar o pagamento das verbas trabalhistas.
CASO O BANCO NÃO TENHA RECURSOS, EXISTE RISCO DE OS TRABALHADORES NÃO RECEBEREM INTEGRALMENTE SUAS VERBAS?
Sim. Elisa Alonso diz que, em processos de liquidação, é comum que os trabalhadores convivam com incertezas e atrasos nos pagamentos, especialmente quando a empresa já enfrenta dificuldades financeiras. Isso, no entanto, não retira o direito ao recebimento.
"Salários, férias, 13º e demais verbas trabalhistas continuam sendo devidos e integram a categoria dos créditos prioritários. Caso haja atraso ou suspensão dos pagamentos, esses valores podem e devem ser cobrados, inclusive pela via judicial, preservando-se a preferência legal dos créditos trabalhistas".
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