Grande Recife vive empate técnico entre direita e esquerda e alta polarização
Pesquisa UniFafire mostra que 40% dos eleitores já sofreram preconceito político
A Região Metropolitana do Recife (RMR) é um tabuleiro político dividido ao meio. Enquanto o Brasil vê um avanço da direita, por aqui o cenário é de espelho: 23,81% se declaram de direita e 23,68% de esquerda. O equilíbrio é quase cirúrgico, mas o custo social é alto. Quase 40% dos eleitores da região afirmam que já sofreram discriminação por causa de suas convicções.
Os dados são do Núcleo de Inteligência de Mercado da UniFafire, que ouviu 801 moradores entre novembro e dezembro de 2025. A pesquisa revela uma RMR que caminha na contramão do país: há um "vácuo de moderação" e uma rejeição a rótulos de centro, enquanto o sentimento de intolerância cresce nas ruas.
Menos centro e mais pragmatismo
Diferente do cenário nacional, onde o "Centro" ainda respira, no Recife ele encolhe. A centro-direita, por exemplo, é quase invisível na capital e arredores, representando apenas 1,88% dos entrevistados. O que sobra é um eleitorado polarizado, mas que também guarda um segredo: 31,08% não se identificam com nenhum rótulo, preferindo o pragmatismo.
Para Felipe Ferreira Lima, cientista político e professor da UniFafire, o dado revela uma região que “apesar de altamente polarizada, apresenta um percentual significativo de pessoas que não se utilizam de um critério partidário ou estritamente ideológico para definir o voto, mostrando-se pragmáticas e resistentes a classificações tradicionais”. Isso torna a RMR um território estratégico e imprevisível para 2026.
O "apagão" da memória legislativa
Se a identidade ideológica é forte, a memória sobre quem faz as leis é curta. A pesquisa aponta um fenômeno preocupante: o distanciamento do Legislativo. Enquanto 88,21% lembram em quem votaram para Presidente, o nome do deputado estadual sumiu da cabeça de 64,32% dos eleitores. No caso do deputado federal, o esquecimento chega a 69,83%. Já 64,17% não se lembram do senador escolhido
“O eleitor participa do processo eleitoral, mas se desconecta do acompanhamento do mandato. Sem memória do voto, enfraquece-se a fiscalização e a responsabilização dos eleitos”, analisa Felipe Ferreira Lima. Já para o Executivo, a lembrança é maior (67,53% para governador), refletindo como o debate presidencial permanece vivo no dia a dia.
Fidelidade e volatilidade nas urnas
A pesquisa também olhou para o futuro. Quem lembra do voto para deputado tende a ser fiel: mais de 70% repetiriam a escolha. No entanto, para o Governo do Estado, o clima é de incerteza. Apenas 54,42% votariam novamente na mesma candidata, enquanto 45,58% admitem que mudariam o voto, mostrando um eleitorado mais crítico e volátil com o comando estadual.
Para o coordenador da pesquisa, João Paulo Nogueira, a robustez metodológica do estudo — que teve 95% de nível de confiança — deu segurança para os resultados. “A sondagem conseguiu reproduzir com precisão o comportamento real do eleitorado, o que dá segurança para interpretar os demais dados”, afirma.
O alerta da intolerância
Outro ponto sensível do levantamento é a erosão da convivência. Ao registrar que 39,83% da população sentiu na pele o preconceito por suas ideias, o estudo acende um alerta sobre o futuro democrático.
“Quando quase 40% da população sente preconceito por suas ideias políticas, há um sinal claro de erosão da tolerância democrática”, observa Felipe Ferreira Lima. O desafio para as instituições, segundo o estudo, é reduzir essa distância entre o eleitor e o Legislativo, entre voto e mandato, e enfrentar as cicatrizes sociais deixadas pela polarização.
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