Aos 115 anos, dona Alvarina ainda varre a casa e lava roupas
Prefeitura de Muniz Freire disse que irá auxiliar a família para registrá-la no Livro dos Recordes como pessoa mais velha do Brasil
Aos 115 anos, completados em 3 de janeiro, Alvarina Campos segue desafiando o tempo com uma rotina que impressiona até os mais próximos. Moradora da comunidade Cristo Rei, no distrito de Alto Norte, em Muniz Freire, a centenária, carinhosamente chamada de dona Nina, ainda varre a casa, cuida dos próprios pertences e faz questão de lavar as próprias roupas.
Atualmente, o cearense João Marinho Neto, 113 anos, é considerado o homem mais velho do Brasil e do mundo, segundo o Guinness World Records, o Livro dos Recordes.
A Prefeitura de Muniz Freire informou que ajudará a família no processo de registro de dona Nina junto ao Guinness. Caso o reconhecimento seja confirmado, ela pode se tornar oficialmente a pessoa mais velha do Brasil.
Nascida em 1911, no distrito de Piaçu, ela foi criada pela mãe, agricultora que sustentou sozinha três filhas. A vida foi marcada pelo trabalho na roça e nas lavouras de café. Mãe solteira, caminhava cerca de 4 km por dia para garantir o sustento da casa.
Há cerca de 15 anos, ela vive no terreno do neto Luiz Campos Gomes, 54 anos, em uma casa ao lado da família. Segundo ele, a avó mantém a independência dentro do possível. “Há dias em que ela mesma limpa a casa. As roupas pessoais, faz questão de lavar sozinha. Apenas as peças mais pesadas ficam por conta da minha esposa”.
No último domingo, uma festa reuniu cerca de 200 pessoas para a comemoração do aniversário de Alvarina. Na preparação da festa, a disposição chamou atenção. “Ela ficou em pé quase o dia inteiro. Precisei chamá-la várias vezes para parar de tirar fotos e descansar”.
Para a família, a longevidade de dona Nina tem explicação nos hábitos mantidos por mais de um século. A alimentação sempre foi baseada no que vinha do quintal.
“Ela sempre trabalhou na roça e colheu a própria comida. Plantava arroz, feijão e milho. Até hoje, não pode faltar verdura. Pode até ter uma carninha, mas, sem verdura, ela não quer comer”, conta o neto.
Devota de Nossa Senhora Aparecida, Alvarina mantém a fé como parte da rotina. “Ela não deita ou levanta sem rezar”, resume Luiz.
Mãe de uma filha, avó de 9 netos, bisavó de 8 bisnetos e tataravó de 14 tataranetos, dona Nina é vista pela comunidade como símbolo de resistência e simplicidade.
Luiz Campos Gomes, neto de Alvarina
“Faz questão de lavar as roupas”
A Tribuna — Como é a rotina da sua avó?
Luiz Campos Gomes — Ela passa a maior parte do tempo em casa, que fica aqui ao lado da minha, no terreiro. Até pouco tempo, ainda preparava a própria comida, mas preferimos fazer e levar para ela.
Há dias em que ela mesma limpa a casa. As roupas pessoais, faz questão de lavar sozinha; não gosta que outras pessoas lavem. Apenas as peças mais pesadas ficam por conta da minha esposa.
Graças a Deus, a vó é muito forte. Durante a festa de aniversário, ela ficou em pé quase o dia inteiro. Precisei chamá-la várias vezes para parar de tirar fotos e descansar. Hoje, a única dificuldade maior é a audição.
A que você atribui essa longevidade da sua avó?
Tenho 54 anos e conheço bem a luta da minha avó. Eram três irmãs, mas as outras já faleceram. Ela sempre trabalhou na roça, nunca estudou e sempre colheu a própria comida. Não havia uso de agrotóxicos: plantava arroz, feijão e milho. Tudo vinha do quintal de casa.
Ela sempre gostou muito de verduras e, quando voltava da roça, trazia alface, almeirão, chuchu, tudo natural. Até hoje, não pode faltar verdura na alimentação. Pode até ter uma carninha, mas, sem verdura, ela não quer comer.
Como foi a festa e a reação dela durante a comemoração?
Nós sempre fizemos festas para ela, mas por um período paramos e comemorávamos apenas em casa, com a família. A festa deste ano surgiu a partir de uma ideia do bispo dom Luiz Fernando Lisboa, da Diocese, que fez uma visita à nossa comunidade e quis conhecê-la, junto com o padre. Ele disse que não poderíamos deixar a data passar em branco.
Então organizamos a festa e a celebração com o diácono. Ela ficou muito feliz e, enquanto preparávamos tudo, dizia que queria ajudar. Minha avó é uma guerreira.
Saiba mais
Estado tem 678 centenários
O Espírito Santo possui atualmente 678 pessoas com 100 anos ou mais, sendo 200 homens e 478 mulheres, de acordo com dados do Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em comparação com o Censo de 2010, quando o Estado registrava 504 centenários, houve um aumento de 34,5% no número de pessoas que alcançaram essa faixa etária.
Apesar do crescimento, os centenários representam apenas 0,017% da população total capixaba, estimada em cerca de 3,8 milhões de habitantes.
Segundo o IBGE, é comum que as mulheres sejam maioria entre os centenários, já que apresentam, em média, menor mortalidade em todas as fases da vida. No Espírito Santo, elas somam 478 pessoas, o que corresponde a 70,5% do total.
Em Muniz Freire, município com 18.153 habitantes, oito moradores têm 100 anos de idade ou mais.
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