Filme de Mary Bronstein traz o “inferno da maternidade”
Protagonista do longa cuida sozinha da filha doente enquanto o marido trabalha fora da cidade
“O inferno da maternidade” ou “maternidades neuróticas”. Assim tem sido resumido o novo longa de Mary Bronstein, desde sua estreia, nos festivais de Sundance e Berlim.
Embora as críticas até aqui sejam predominantemente elogiosas, mais justo seria dizer que “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” aposta em um elenco primoroso para descrever com acidez uma sociedade que vira as costas para mães em apuros, numa combinação original de comédia, drama e terror.
De fato, a protagonista do filme cuida sozinha da filha doente, já que o marido trabalha fora da cidade. Se isso por si só já garantiria um roteiro infernal, vale dizer, com o perdão da piada infame, que o buraco é mais embaixo.
A menina, que sofre de um distúrbio alimentar grave, passa a noite conectada a uma sonda gástrica, na tentativa de ganhar peso. Por conta disso, e do orifício aberto em sua barriga, a mãe só pode desgrudar da filha quando a deixa no hospital.
Para completar, a casa está com infiltração e o teto do quarto desaba, de modo que as duas precisam se mudar para um motel, entre o simplório e o sinistro.
Não é preciso dizer que as noites da protagonista são curtas e mal dormidas. Menos óbvio é o que ela faz para relaxar, nos momentos de sono da filha enferma: liga a babá eletrônica e sai para o jardim do motel, para tomar vinho e fumar um baseado.
Linda (interpretada por Rose Byrne, espetacular), porém, não é somente mãe e dona de casa, como ela mesma diz, numa conversa ao telefone com o marido ausente (Christian Slater).
Enquanto a filha recebe tratamento médico, ela trabalha como psicoterapeuta. Numa estética radical, presente desde o início do filme, o rosto da garota jamais aparece na tela. Na cena de abertura, a criança descreve seus pais para sua psicoterapeuta. “Minha mãe é flexível, e meu pai é mais difícil de dobrar”, diz ela.
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